Luiz Carlos Pais
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. (Fernando Pessoa)
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RELAÇÕES ENTRE O REAL E O SUPRARREAL PROPOSTAS POR CARL GUSTAV JUNG NO ÂMBITO DA PSICOLOGIA ANALÍTICA
Este ensaio descreve alguns conceitos e noções fundamentais da psicologia analítica de orientação junguiana, tomando como foco principal as relações entre a realidade imediata vivenciada pela pessoa e o que se considera suprarreal. Essa abordagem da psicologia começou a ser desenvolvida, por volta de 1912, pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, sobretudo, quando ele deixou de trabalhar em parceria com Sigmund Freud, no campo da psicanálise clássica, devido a divergências teóricas fundamentais. Durante cerca de seis décadas, Jung pesquisou intensamente e publicou muitos trabalhos que perfazem as bases teóricas da psicologia analítica. Seus principais trabalhos foram reunidos na coleção Obras Completas, publicadas no Brasil pela Editora Vozes. Cumpre observar que o nosso interesse, ao redigir este ensaio, é somente didático, sem a pretensão de acrescentar nada de novo ao campo de atuação da psicologia.
Mais especificamente o foco principal deste artigo está orientado para entender o que Jung considera como aspectos mais relevantes para as relações entre o real e o suprarreal. Esse assunto ocupa um dos capítulos da obra A Natureza da Psique, cuja primeira versão foi publicada em 1916, visando arrefecer críticas oriundas do meio acadêmico e do campo da psicanálise freudiana sobre sua disponibilidade teórica para tratar de questões transcendentais, que vão além do domínio, incluindo as consideráveis relações entre as funções psicológicas e as convicções religiosas das pessoas que Jung atendia em sua prática psiquiátrica. Sem fazer nenhuma apologia ou doutrinação religiosa de qualquer natureza, Jung se dispõe a descrever fenômenos que sempre permearam a interseção da saúde mental e religiosidade no sentido profundo deste termo.
Sobre esse aspecto fundamental da psicologia analítica junguiana, envolvendo a disponibilidade de espírito para tratar de questões sem explicação racional em um em dado momento da história das ciências, é oportuno destacar que sua tese de medicina, defendida em 1902, tinha por título Sobre a psicologia e patologia dos fenômenos chamados ocultos. Esse foi um trabalho experimental, baseado em descrição de vivencias de pacientes com experiências nesse domínio. Até então havia poucos trabalhos sobre os chamados fenômenos ocultos, tais como mediunidade ou mesmo sobre o sonambulismo, temas que sempre despertaram o interesse de Jung, desde sua infância e adolescência. Mas ele sempre restringiu ao trabalho de descrição fenomenológicas de casos observados no âmbito de sua prática psiquiátrica e psicanalítica. Do ponto de visa metodológico Jung sempre teve o cuidado para não extrapolar os limites do nível ideográfico, ou seja, relativo ao sujeito que vivenciou tais experiências.
Os pressupostos da psicologia analítica não permitem considerar a experiência mediúnica como uma experiência sobrenatural, mas sim como manifestações naturais do inconsciente pessoal e coletivo, associadas à formas arquetípicas. Além do mais, essas manifestações inconscientes dão origens aos complexos, que padrões persistentes de comportamento externo, de sentimentos e emoções intensas que a pessoa vivencia em determinadas situações. A princípio, os complexos não são negativos ou positivos, tudo depende da forma como a pessoa consegue integrar forças opostas da psique. Desse modo, o inconsciente e os complexos são estruturas fundamentais para o processo de individuação, funcionando como um caminho vital para o desenvolvimento humano.
Com base em pressupostos de um domínio científico, a psicologia analítica é um referencial que permite analisar os fenômenos considerados ocultos o que foi uma direção crucial para o seu desenvolvimento visando estudar a totalidade da psique humana, envolvendo, sobretudo, a interação triangular entre inconsciente pessoal, inconsciente coletivo e consciência que reúne as funções psicológicas de modo geral. O centro de massa desse triângulo simboliza as condições para vivenciar o processo de individuação, lançando múltiplas linhas de articulação com vivências humanas ainda não apreendidas pelas ciências da saúde mental. Não há como negar que o trabalho de Jung colaborou para iniciar a superação de preconceitos sobre tais fenômenos considerados ocultos. É sobre esse tema que destacamos alguns pontos que consideramos ser mais relevantes para entender as bases da psicologia analítica.
Jung define o conceito de psique como uma totalidade formada pelo conjunto dos conteúdos do consciente e do inconsciente pessoal e coletivo. Do ponto de vista didático a psique pode ser ilustrada por uma superfície esférica, incluindo a parte interior. O centro dessa totalidade e uma pequena esfera em seu entorno representa o self, cuja dimensão pode variar até integrar a totalidade da psique. Todo o material contido na psique forma um sistema autorregulador das funções psicológicas do indivíduo, o que proporciona o autoconhecimento e crescimento pessoal, condições que Jung chamou de processo de individuação. Grande parte dessa totalidade é preenchida pelo inconsciente pessoal e coletivo, região inacessível facilmente pela consciência que pode ser ilustrada por uma pequena região circular localizada na superfície da esfera, cujo centro é o ego. O processo de individuação avança na medida em que o ego desperta para a necessidade de compreender a complementaridade existente entre as duas estruturas polos da psique que são o consciente e o inconsciente pessoal e coletivo.
Toda pessoa tem o potencial de realização através da individuação, em função da forma como evoluem, durante a história de vida, as relações entre o inconsciente pessoal e coletivo e as estruturas do consciente. Desse modo, para se aproximar da complexidade inerente à psique humana, ou seja, conhecer ao menos uma parte da totalidade formada pelas relações do consciente com o inconsciente, alguns aspectos devem ser destacados.
Conduzido por uma sinceridade intelectual diferenciada, Carl Gustav Jung afirma no livro A Natureza da Psique que ele nada sabia a respeito do que chamou de suprarreal e nesse sentido ele parte do princípio de que a realidade envolve tudo aquilo que o ser humano pode conhecer. O real nesse sentido é tudo o que age ou reage no universo coabitado pelos seres humanos. Se não houver atividade humana não é possível dar conta da real compartilhado pelo indivíduo. Mas ao invés de contrapor real com o irreal, Jung indica a necessidade de investigar a dimensão suprarreal, ou seja, que está além da realidade imediata.
No sentido destacado por Jung, o pensamento é uma função psicológica real, o que confirma as cargas elétricas contidas nos neurônios, sobretudo, daqueles cujos núcleos estão na região da massa cinzenta do cérebro. Por outro lado, tudo o que pode ser sentido ou pressentido pelos órgãos sensoriais do corpo também é dotado de realidade, tal com os pensamentos, memórias, linguagem, sentimentos, afetos e comportamentos.
O conceito de realidade predominante em grande parte da psicologia do início do século XX estava ainda fortemente baseado na visão mecanicista e nesse sentido essa noção precisaria passar por uma ressignificação, no sentido de incorporar a dimensão energética que estava sendo ampliada naquela época.
Ao destacar essas relações entre a realidade imediata da existência humana e o seu nível suprarreal, vivenciado por muitas pessoas, Jung finaliza seu texto lembrando do quanto o pensamento ocidental foi delimitado ao atribuir apenas uma realidade derivada de causas materiais. Por outro lado, a sabedoria oriental já havia há muito tempo enfatizado complementaridade dos opostos na essência de todas as coisas e, por consequência, também na psique humana. A realidade dos processos psíquicos envolve o que o ser humano pode vivenciar diretamente, mas essa fonte experimental para o estudo da psicologia está inserida numa rede de outras essências que transcendem a matéria imediata o espírito humano no momento considerado.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 02/01/2026
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