PRIMEIRA JORNADA DE ORIENTAÇÃO VOCACIONAL DE CAMPO GRANDE: HISTÓRIA DA PSICOLOGIA NA ANTIGA REGIÃO SULINA DO MATO GROSSO
Este artigo analisa elementos históricos da Primeira Jornada de Orientação Vocacional Profissional de Campo Grande, realizada em julho de 1968, quando estava iniciando a formação do campo da psicologia da antiga região sulina do Mato Grosso. Associada a esse propósito está a intenção de focalizar o cenário regional no qual estava em curso o movimento político, econômico e social para a criação do atual Estado do Mato Grosso do Sul, que ocorreria somente uma década depois. A partir de fontes secundárias recolhidas na imprensa da época, articulando eventos locais e regionais, é possível destacar indícios dos primeiros momentos de constituição do campo profissional da psicologia. A jornada de orientação profissional ocorreu sob a liderança da psicóloga Eugênia Coelho Paredes, então recém graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, cuja trajetória está na História da Psicologia no Brasil, referenciada com a simbólica inscrição “número 1” do Conselho Regional de Psicologia do Mato Grosso. Foi possível constatar que a formação inicial do campo da psicologia em Campo Grande, na década de 1960, transcorreu em momento de valorização de disseminação da orientação profissional, temática recebida como expressão de modernidade no contexto econômico, político e social que proporcionaria as condições para a criação do Estado de Mato Grosso do Sul.
Palavras-chave: Psicologia em Campo Grande, Orientação Vocacional. História da Psicologia. História da Psicologia no Mato Grosso do Sul.
1. Definição de um problema histórico
O objetivo principal do retorno histórico proposto neste artigo é registrar a realização, em meados de 1968, da Primeira Jornada de Orientação Vocacional Profissional de Campo Grande, hoje Mato Grosso do Sul. Naquele momento, estava em curso a constituição inicial do campo profissional da psicologia em Cuiabá, capital do Mao Grosso, assim em Corumbá e Campo Grande, cidades polos da região na qual seria criado depois, o Mato Grosso do Sul. Para orientar a redação desse evento histórico inserido no contexto da formação inicial do campo da psicologia regional, adotamos o esquema heptagonal de orientação metodológica de uma pesquisa histórica, conforme analisamos em Pais (2018).
Com base na perspectiva da História Cultural, proposta por Burke (2008), nossa intenção é valorizar sete elementos interligados que expressam a maneira como concebemos a escrita da história, valorizando elementos que clássicos que estão normalmente presentes da grande maioria dos trabalhos de pesquisa. Esses sete elementos são os seguintes: definição de um problema histórico, fontes da pesquisa, objetivos, referencial teórico, questões de método, análise das fontes e trajetória pessoal do pesquisador.
O problema histórico focalizado na redação deste artigo é o início do campo profissional da psicologia no Mato Grosso, na década de 1960, com o reconte mais específico para eventos ocorridos em Campo Grande e Corumbá, cidades hoje inseridas no Estado de Mato Grosso do Sul. O mais importante de uma leitura histórica cultural, como valorizamos neste trabalho, não são os eventos isolados, mas a totalidade do clima regional da época, no qual os protagonistas da história deixaram seus legados para as futuras gerações. É com essa intenção maior que coletamos diferentes registros da época considerada, incluindo a criação, em 1967, do primeiro curso de psicologia do Mato Grosso, no Instituto Superior de Pedagogia de Corumbá, conforme registram Melo e Anache (2011). Além dessa proposta, nossa intenção é articular, tanto quanto for possível, elementos das instâncias local, regional e nacional, que conjuntamente permite uma maneira de compreender uma parte da história da psicologia no atual Estado de Mato Grosso do Sul.
2. Fontes da Pesquisa
A primeira fonte que nos motivou a escrever sobre a Primeira Jornada de Orientação Vocacional Profissional de Campo Grande foi uma reportagem publicada no jornal O Estado de Mato Grosso, de Cuiabá, edição de 21 de julho de 1968. A partir dessa referência inicial, conseguimos localizar outros registros jornalísticos em imagens disponibilizadas na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, localizadas com o descritor “psicologia”, com recortes específicos na década de 1960 e no Estado do Mato Grosso. Na parte referente à temática da Orientação Vocacional, obtivemos artigos publicados pelo Instituto de Seleção e Orientação Profissional da Fundação Getúlio Vargas, instituição pioneira no Brasil no campo psicológico da vocação e orientação profissional. Entre as fontes analisadas também está o Dicionário Histórico de Instituições de Psicologia no Brasil, publicado pela Editora Imago do Rio de Janeiro em 2011.
3. Objetivos geral e específicos
Para operacionar uma aproximação inicial do problema histórico redigido nas primeiras linhas deste texto, o objetivo geral do estudo descrito neste artigo consiste em: registrar eventos históricos culturais relacionados à formação inicial do campo profissional da psicologia em Campo Grande, ocorridos na década de 1960. Em vista da amplitude dessa intencionalidade de pesquisa, assim como em função das fontes que conseguimos localizar até o momento, resolvemos desdobrar o objetivo principal em três objetivos específicos que entendemos melhor definir nossa proposta de estudo, os quais são descritos na continuidade.
O primeiro objetivo específico consiste em: articular o contexto político, social e cultural da cidade de Campo Grande, na década de 1960, que serviram de cenário mais amplo para fomentar os primeiros momentos do campo profissional da psicologia. Em seguida, priorizamos o objetivo específico de: destacar elementos do campo da orientação vocacional profissional que estavam entre as principais área de atuação dos psicólogos pioneiros do Mato Grosso. Finalmente, o terceiro objetivo específico condutor do estudo narrado neste exercício de pesquisa consiste em: descrever especificidades do quadro cultural de referência de Campo Grande, da década de 1960, no qual se intensificou a constituição do campo profissional da psicologia.
4. Referencial Teórico
O referencial teórico escolhido para registrar a realização da Primeira Jornada de Orientação Vocacional Profissional de Campo Grande é a História Cultural, concebida a partir da perspectiva de Burke (2008). O desafio maior dessa proposta consiste em articular, tanto quanto for possível em função das fontes acessadas, as realidades locais, regionais e globais, levando à desejável apropriação de traços mais robustos da história da psicologia nessa região específica do Brasil. Nesse sentido, amplia-se o quadro de referência cultural no qual o problema histórico tratado neste trabalho está no contexto inicial de formação do campo profissional da psicologia regional e nacional. A intenção é valorizar a noção de produção histórica cultural, entrelaçando o contexto social e político com a especificidade do campo de orientação vocacional profissional, que transpira o clima de modernidade vivenciado na cidade de Campo Grande, na iminência de vir a ser a capital de uma nova unidade federativa.
Nas últimas décadas, houve no campo da história uma ressignificação da noção de representação, sendo essa uma ideia central nova histórica cultural, que esteve em voga até meados dos anos XX. A principal característica dessa ampliação teórica ocorrida no campo da história é a maior valorização da noção de construção ou produção cultural, pensada de modo mais dinâmico dentro de um determinado contexto social. Em outros termos, quando retornarmos à década de 1960, para visualizar eventos pontuais da história da psicologia em Campo Grande, momentos de intensas disputas políticas para a divisão do antigo Mato Grosso Uno, o mais importante não são as representações individuais ou coletivas que prevaleceram nesse contexto, mas sim as produções culturais que moldaram esse momento da histórica e o modo como os protagonistas souberam inscrever seus nomes na história. De modo, os saberes e conhecimentos envolvidos passam a ter um aspecto muito mais dinâmico e menos estático. Nosso desafio é mostrar o colorido próprio da maneira como as cenas históricas ocorrerem no cenário regional, entrelaçando aspectos inerentes ao campo da psicologia, bem como as condições gerais do ambiente.
Essa maneira de conceber a história sinaliza uma flexibilização da visão positivista que prioriza supostos fatos, sequências e eventos essencialmente abstratos e distantes do mundo imediato das pessoas, como ilustra o mundo das ideias platônicas. As representações sempre são povoadas dessa visão positivista. Uma vez admitidas, sejam gráficas, simbólicas ou linguísticas, abre uma enorme lacuna entre o representante e o representado. A divisão estruturalista entre significante e significado ilustra essa concepção positivista, de um lado está o símbolo material, apreensível pela sensação do corpo, e do outro está o mundo da abstração das ideias. Essa diferença está fortemente presente na história eventual.
A tentativa de dinamizar esse modelo da história das datas sequenciais é proposta pelo conceito de produção histórica descrito por Burke (2008). É mais significativo mostrar como as representações funcionaram em termos produtivos no contexto considerado. Como funcionaram as propostas iniciais de orientação profissional no contexto sulino do Mato Grosso na ótica de uma equipe de psicólogas formadas nos principais centros culturais do país? Nossa intenção é priorizar essa maneira de conceber a produção histórica regional, pensando mais em termos de circulação de ideias e projetos, procurando favorecer uma abordagem mais pragmática, no sentido de mostrar como as coisas funcionaram no contexto regional considerado.
Qualquer que seja a realidade social considerada, ao pretender registrar momentos de uma história cultural, somos levados a considerar os mais diversos problemas que as pessoas viveram no contexto considerado, tal como os desafios políticos, econômicos e cultuais entre os quais as primeiras sementes foram lançadas e germinadas no campo profissional da psicologia regional. É por esse motivo que priorizar a definição de um problema central, como destacamos na postulação do modelo heptagonal de organização da pesquisa. (PAIS, 2020). Sem problema só existe o vazio, tal como divulgou com ênfase, o historiador francês Lucien Febvre. No sentido amplo do termo do termo, desde os momentos iniciais de uma longa trajetória, os protagonistas vivenciam seus primeiros grandes desafios de diferentes ordens e dimensões.
Com base nos pressupostos acima, ao definir o problema da busca de fontes primárias ou secundárias para escrever a história da psicologia em Campo Grande, essa questão passará a ser concebida em um cenário cultural mais amplo. No mesmo quadro histórico havia outros problemas correlatos, com relativos graus de proximidade como a interrogação escolhida, tal como a construção do primeiro hospital psiquiátrico da região, a primeiras aulas de psiquiatria no curso de medicina que estava sendo inaugurado naquele momento, entre outros problemas que se interligam ao contexto maior.
Ao destacar a importância precedente da definição do problema motivador na condução da história cultural, Burke (2008) observa que, com o avanço da pesquisa histórica, novos problemas vão emergindo e sinalizando para outras possíveis frentes de pesquisa. Assim, além da noção de representação que sempre foi importante em diferentes domínios das ciências humanas e sociais, faz sentido mostrar como as produções históricas ocorreram em sintonia com o tempo vivenciado pelos seus protagonistas. Fica evidente a existência de dois problemas entrelaçados: atual que é definido na história escrita e o problema histórico que mobiliou os protagonistas do passado.
É de fundamental importância mostrar como os protagonistas souberam atravessar seus dias e deixar o legado para as futuras gerações. Esse modo de pensar a história permite se aproximar do entendimento de como as pessoas pensaram e souberam realizar seus projetos em meios aos múltiplos desafios da época considerada. Ao priorizar o conceito de produção histórica, Roger Chartier, conforme destaca Peter Burke (2002), faz-se necessário perceber que houve um deslocamento importante “da história social da cultura para a história cultural da sociedade”. Ideia que começou a circular a partir dos anos 1980, procurando se afastar da histórica eventual em favor da ideia de produção cultural ocorrida em um determinado quadro social.
5. Questões de método
As questões de método na pesquisa histórica, tal como valorizamos na redação deste trabalho, consiste em destacar unidades de significado extraídas das fontes acessadas, com a realização de sucessivas análises, procurando articular os significados local, regional e global, procurando assim definir os fatos históricos em função do problema norteador da pesquisa. Método significa o caminho e o modo de caminhar no recolhimento dos traços usados para compor nossa maneira de entender o tempo passado. Conforme tivemos a oportunidade de descrever, de forma mais detalhada, em Pais (2018), esse procedimento fenomenológico de conduzir a pesquisa consiste em procurar entender o que não está explicitamente dito na exterioridade do registro. As unidades são significadas na medida em que vários elos são estabelecidos com diferentes partes dos documentos ou monumentos históricos tratados. É de fundamental importância que a condução do método não perca de vista o objetivo principal que é conhecer a história da constituição inicial do campo profissional da psicologia em Campo Grande. Essa proposta também está associada à intenção de contribuir para uma leitura histórica da formação inicial do campo profissional da psicologia já antiga região sulina do Mato Grosso, razão pela qual destaca-se o pioneirismo de Corumbá, hoje Mato Grosso do Sul, onde foi instalado o primeiro curso de graduação em psicologia de toda a região. Desse modo, não se trata apenas de descrever a realização de um evento isolado, mas destacar elementos do cenário mais amplo no qual seriam lançados os primeiros alicerces de amplo campo profissional.
6. Análise das fontes
Ao focalizar o início da produção do campo da psicologia no Mato Grosso, nos anos 1960, nosso desejo é não perder de vista o que estava ocorrendo na época, quanto à profissão de psicólogo. A oficialização da atividade profissional, conferida pela Lei no 4.119, de 27 de agosto de 1962, simboliza a longa trajetória de luta e perseverança dos pioneiros da psicologia no Brasil. Em paralelo com o avanço da profissionalidade, outros movimentos estavam ocorrendo no Brasil, tal como a difusão das primeiras comunidades terapêuticas. Desde a década anterior, esse modelo de instituição estava sendo disseminado, em diferentes países, a partir das ideias do psiquiatra inglês Maxwell Jones, acreditando ser um espaço supostamente ideal para tratar as neuroses de guerra.
O modelo das comunidades terapêuticas chegou ao Brasil, como possível alternativa para tentar postergar a valência dos antigos hospitais psiquiátricos e o estado lastimável de indignidade humana neles encontrado. É ilustrativo dessa visão uma reportagem publicada no Diário de Pernambuco, Recife, em 10 de setembro de 1967, divulgando a expectativa de criação local de uma comunidade terapêutica, para melhorar as condições de retenção de doentes mentais. Desde essa época, tais instituições asilares eram concebidas como “necessária” para tratar pessoas com transtorno de consumo de substancias psicoativas. De lá para cá, são vários registros da disfuncionalidade dessas instituições, bem como em outras congêneres criadas na visão manicomial.
A década de 1960 foi um período importante no desenvolvimento histórico das primeiras instituições de psicologia e saúde mental de Campo Grande, assim como da criação dos primeiros cursos superiores da então denominada região sulina do Mato Grosso e atual Mato Grosso do Sul. Havia nessa época um intenso fluxo migratório com a chegada de pessoas vindas de diferentes partes do Brasil e do exterior, reconhecendo o progresso e a polaridade econômica e política exercida por Campo Grande. Parte desses novos moradores da cidade e região chega pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.
Por essa mesma linha ferroviária chegavam muitas pessoas desprovidas de recursos e acometidas de hanseníase ou pênfigo (fogo selvagem). Como registra a imprensa da época, era comum essas pessoas terem a passagem ferroviária paga por prefeitos de outros estados, sob a promessa de que em Campo Grande seria possível obter tratamento médico no antigo Hospital São Julião ou no antigo Hospital do Pênfigo. Nesse contexto, foi criado o Sanatório Mato Grosso, mantido pelo Centro Espírito Discípulo de Jesus, inaugurado em 27 de janeiro de 1966, sob a liderança de Maria Edwiges de Albuquerque Borges. Desde o final dos anos 1940, a comunidade espírita local estava empenhada na construção da sede do Sanatório, que, após a criação do Estado do Mato Grosso do Sul, recebeu a denominação de Hospital Nosso Lar.
O mensal jornal Brasil Oeste, de São Paulo, de outubro de 1962, noticiou a construção do prédio do Sanatório Mato Grosso de Campo Grande. Ficou registrada a importância da obra não somente para a cidade de Campo Grande, mas para toda a região sulina do Mato Grosso, uma vasta região na qual não havia nenhuma instituição especializada no tratamento de pessoas com transtorno mental. Razão pela qual ainda prevalecia a lamentável prática de recolher à cadeia pública doentes mentais agitados que estivessem vagando pela cidade. Depois de 15 anos de trabalhos e várias campanhas lideradas pela líder espírita Maria Edwiges ainda faltavam recursos para finalizar a obra e para a aquisição dos equipamentos e instalações.
Estava nascendo uma instituição benemérita, idealizada em meados dos anos 1930, pelas lideranças do Centro Espírita Discípulo de Jesus, de Campo Grande. Embora o Presidente Getúlio Vargas tivesse reconhecido o projeto da instituição de utilidade pública, por um decreto de 1944, até início da década dos anos 1960, não havia alocação de verbas públicas suficientes para a construção do prédio. No referido registro jornalístico, foi esclarecido que o futuro Sanatório estava sendo construído como um departamento do Centro Espírita, que também coordenava serviço de atendimento de 50 famílias pobres, com a distribuição regular de cestas de alimentos, assim como o fornecimento de alguns medicamentos mais simples. A mesma entidade mantinha a Escola Bezerra de Menezes, oferecendo instrução escolar popular em três turnos, incluindo um curso de alfabetização de adultos.
Em 1963, o ex-prefeito de Campo Grande, médico Wilson Fadul foi convidado pelo Presidente João Goulart a assumir o Ministério da Saúde, iniciando um período de combate aos desmandos reinantes no país, no setor da indústria farmacêutica internacional. Sua atuação no Ministério da Saúde foi de grande relevância na concessão de recursos federais para a finalização da construção do prédio do Sanatório Mato Grosso, assim como a aquisição dos equipamentos necessários para a inauguração, em janeiro de 1966, com a participação do psiquiatra Luis Salvador de Miranda Sá Júnior, humanista que redimensionou o espaço de atuação de todos os profissionais do campo da saúde mental do Mato Grosso do Sul.
Não podemos perder de vista que a jornada referencia neste texto ocorreu no contexto inicial da Revolução Cultural de 1968, fomentada pelos ideais da vanguarda universitária francesa, com ousadas propostas de avanços sociais, que ecoavam em outros países e nos ambientes das principais universidades do Brasil. Nesse momento, florescia a organização inicial da profissionalização do trabalho realizado por psicólogas e psicólogos, tendo em vista a publicação da Lei nº 4.119/1962, que regulamentou a profissão de psicólogo no Brasil, ainda no contexto dos avanços sociais que precederam ao início do Governo Militar. Entre as atribuições previstas para a nova profissão estava a orientação e seleção de profissionais em organizações empresariais, assim como realizar perícias, emitir pareceres e aplicar testes para dinamizar a visão comercial.
O evento histórico regional focalizado neste artigo estava inserido em um contexto bem mais amplo, marcado pela repressão militar, momento ainda mais truculento para impedir qualquer mudança social no Brasil. Mas, por outro lado, o projeto de orientação profissional na região sulina do Mato Grosso, no final dos anos 1960, atraiu o trabalho de uma equipe de cinco jovens psicólogas que se empenharam para participar de momentos pontuais da história de constituição inicial do campo profissional da psicologia na região. Essa equipe profissional estava sob a liderança da jovem psicóloga Eugênia Coelho Paredes, que nas próximas cinco décadas atuaria em diferentes projetos para consolidar a área de Psicologia no Mato Grosso, Mas, naquele momento, o projeto de orientação profissional realizado em Campo Grande e Corumbá foi idealizado a partir da influência centralizada em Cuiabá e das outras quatro profissionais que estavam atuando em São Paulo. As outras quatros psicólogas que compuseram a equipe de orientação profissional eram: Cláudia Fernandes, Carlota Azuma, Chufa Ching e Judth Von Dobay. Naquele momento, essa equipe estava atuando na Capital Paulista, onde participavam das atividades promovidas pelo Curso de Psicologia da Pontifícia Católica de São Paulo.
Eugênia Coelho Paredes (1940 - 2020) deixou seu nome na história da psicologia do Mato Grosso, como professora, autora de livros de referência da área, criação e cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia, assim como atuante da Rede Mato-grossense de Comunicação, onde trabalhou como umas das primeiras apresentadoras da Televisão Centro América, na década de 1970. Aposentou-se em 2010, sendo homenageada como professora emética da Universitária Federal de Mato Grosso (UFMT).
No dia 25 de agosto de 2020, a página oficial na internet do Conselho Federal de Psicologia noticiou o falecimento da psicóloga doutora Eugênia Coelho Paredes, ocorrido na mesma data, destacando a importância no seu trabalho na formação histórica do Conselho Regional de Psicologia do Mato Grosso (CRP/18ª Região), no qual ela foi inscrita sob o número 0001. Nesse registro foi destacado que a profissional concluiu o curso de graduação em Psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Janeiro, em 1964. Eugênia Paredes cursou Doutorado em Psicologia na Universidade São Paulo. Ao retornar para Cuiabá, foi pioneira na implantação de cursos de graduação. Iniciou sua carreira docente no final dos anos 1960, ministrando aulas de Psicologia na Escola Técnica Federal do Mato Grosso e no Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá. Na mesma época, a professora Eugênia fez projetos de orientação de serviços psicológicos gerais na imprensa televisiva regional. Ainda quando estava iniciando o curso de Psicologia na PUC-RJ, a jovem acadêmica ministrou aulas em cursos de preparação para o vestibular, conforme foi noticiado no jornal O Estado de Mato Grosso, de Cuiabá, em 14 de Janeiro de 1962. Na mesma época em que coordenou a jornada psicológica em Campo Grande e em Corumbá, a professora Eugênia Coelho Paredes também prestava serviços regulares de Orientação Profissional em Cuiabá, conforme notícia publicada no jornal A Cruz, da mesma capital, edição de 23 de julho de 1968.
Elementos de análise
A análise dos dados descritos neste texto está na estreita dependência da nossa trajetória pessoal, como acadêmicos de um curso de graduação em psicologia, conduzidos apenas uma intencionalidade de pesquisa. Com essa visão, registamos ainda que os testes de vocacionais aplicados pela equipe de psicólogas eram os mesmos adotados no Instituto de Seleção e Orientação Profissional da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, criado em 1947, sob a direção do psicólogo Emilio Mira y Lopez. Como a psicóloga Eugênia Coelho Paredes explicou, em entrevista concedida à imprensa regional, a prioridade foi utilizar testes que permitiam a aplicação coletiva, obedecendo critérios por níveis de escolaridade, visando reduzir o custo de aplicação dos instrumentos. A intenção era preservar a dimensão científica do instrumento adotado que permitia obter informações psicológicas das pessoas que realmente estivessem interessadas e as respostas fossem dadas com toda a sinceridade possível. O público visado eram estudantes que estivessem faixa escolar entre o terceiro ano do antigo curso ginasial – correspondente aos atuais anos finais do Ensino Fundamental - e o terceiro ano dos cursos clássico e científico, níveis que correspondem ao atual Ensino Médio. Durante os quatro dias da avaliação coletiva, com duas horas de atividades por dia, foram aplicados três testes de personalidade, um teste de inteligência, dois de interesses pessoais e três questionários biográficos para avaliar as motivações internas, em sintonia com os traços da personalidade, e assim indicar as principais linhas de vocacional profissional da pessoa. Em síntese, no momento em que Campo Grande se consolidava como polo regional, a realização dessa jornada de orientação vocacional expressava momento de novas perspectivas do progresso local.
As psicológicas foram apresentadas na imprensa como profissionais de projeção no ambiente cultural paulista, onde também estavam em curso a ampla divulgação dos testes psicológicos para escolha mais acertada da vocação da pessoa avaliada. Conforme esclareceu Eugênia Paredes, além a aplicação dos testes, a avaliação psicológica envolvia um questionário e análise para indicar o ramo profissional que mais se aproximasse do perfil psicológico do estudante, tentando compatibilizar as tendências pessoas, habilidades e traços da personalidade. Desse modo, conforme anunciado na imprensa a “jovem guarda estudiosa” estava interessados em descobrir suas vocações.
A desenvoltura profissional das cinco jovens psicólogas que coordenaram a realização da jornada em Campo Grande despertou grande interesse de muitas jovens da cidade em melhor conhecer carreira que estava em franca expansão naquele momento. Por ser a orientação vocacional uma atividade profissional até então desconhecida da população campo-grandense, o trabalho realizado pelas cinco jovens psicólogos foi amplamente noticiado na imprensa regional. A ênfase principal dessas notícias era o aspecto de modernidade no serviço psicológico capaz de contribuir para que as pessoas possam escolher a profissão que melhor possa estar em sintonia com sua personalidade. Para finalizar, cumpre observar que o projeto descrito nesse artigo contava com o apoio da Secretaria de Educação e Cultura do Mato Grosso. A orientação tinha o objetivo de atender estudantes para reduzir o elevado número de reprovação e desistência por falta de vocação para o curso superior escolhido, assim como proporcionar melhor adaptação pessoal às características essenciais da profissão escolhida, torando assim pessoas mais úteis à sociedade e potencialmente mais produtivas.
Referências
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BLOCH, Marc. Apologia da História ou Ofício de Historiador. 1ª ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BURKE, Peter. O que é História Cultural? Trad. Sérgio Goes de Paula. 2ª ed. - Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
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O ESTADO DE MATO GROSSO. Jornal impresso em Cuiabá. Mato Grosso, 21 de julho de 1968.
PAIS, Luiz Carlos. Ensaio sobre Questões de Método na Pesquisa em Educação. Revista Perspectivas da Educação Matemática, v. 11 n. 26. 2018
Luiz Carlos Pais e Simone Silveira Cougo
Enviado por Luiz Carlos Pais em 08/01/2026