Hospital Colônia do Coxipó da Ponte (Cuiabá)
Este artigo descreve uma pesquisa realizada com o objetivo de conhecer a história do Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte, uma das primeiras instituições psiquiátricas de Cuiabá (MT). As fontes analisadas pertencem ao período de 1909, quando o Governo do Estado mandou construir um casarão em uma chácara localizada à margem do Rio Coxipó, e termina com a promulgação da Lei do Mato Grosso, no 2755, de 13 de julho de 1967, que alterou a denominação da instituição para Hospital Adauto Botelho. A justificativa para a realização do projeto resultou a tendência atual do campo da História da Psicologia do Brasil, no sentido de valorizar trabalhos históricos de instituições do cenário mais amplo das realidades regionais do país. O método utilizado foi análise crítica de conteúdo a partir do referencial teórico da História Cultural, na linha proposta por Roger Chartier, valorizando os conceitos de representação, apropriação e produção de práticas institucionais. As fontes analisadas envolvem relatórios do Governo de Mato Grosso, fotografias, legislação, memórias e jornais. Foi possível constatar que a institucionalização da doença mental no Hospital Colônia passou por três fases. Houve um período de abandono e isolamento social dos internos, que eram fortemente vigiados e reprimidos pelas forças policiais instaladas do Casarão do Coxipó, quando não havia ainda nenhum serviço de assistência de médica. Em seguida, a Colônia de Alienados assumiu o estudo de Hospital, passando a contar com os préstimos de um médico nomeado para atender os internos, ainda sem ter à sua disposição os recursos médicos existentes na época. Finalmente, houve uma terceira fase caracterizada pelos serviços de um psiquiatra que passou a atender os internos, até a instituição ter sua denominação alterada para Hospital Adauto Botelho.
Palavras-chaves: Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte; Saúde Mental no Mato Grosso; Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho; Manicômio Coxipó da Ponte.
Referencial teórico
A partir da teorização proposta pelo historiador francês Roger Chartier, a ideia de representação foi ressignificada no sentido de proporcionar um conceito possível de ser utilizado para compreender o funcionamento histórico de uma sociedade em um determinado tempo e contexto. As representações se materializam em práticas discursivas rotineiras, valorizadas e disseminadas pelas instituições que sustentam o contexto cultural considerado. Nesse sentido entendemos ser possível recorrer às indicações de Chartier (1990) para entender as escolhas e posições intelectuais predominantes que sustentaram a trajetória do antigo Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte, no distrito hoje integrado ao município de Cuiabá.
O conceito de representação proposto pelo autor acima referenciado engloba três aspectos principais do mundo social que se entrelaçam para compor o cenário cultural da história. O primeiro aspecto deles é formado por um conjunto rígido de classificações categóricas que produzem as posições intelectuais com as quais a realidade e suas contradições são construídas pelos grupos sociais. O segundo aspecto resulta das práticas preservadas no âmbito da sociedade para definir uma suposta maneira correta de estar no mundo. As classificações e as práticas sustentam conjuntamente o terceiro aspecto da representação na história que são as próprias instituições que se colocam acima das escolhas individuais, mas em cada momento se sustentam com seus fieis representantes. Esses três aspectos sustentam as histórias de longa duração, aquelas que se sobrepõem ao tempo de uma geração e podem atravessar séculos como é o caso da história das instituições de saúde mental.
Inseria no conjunto das representações sociais de um determinado contexto histórico e cultural está a noção de apropriação proposta por Chartier (1990). A partir das classificações estabelecidas pelas instituições, as pessoas e grupos sociais se apropriam dos discursos, práticas e representações, criando um sentido pessoal para se virem a ser bons agentes institucionais. Nem sempre o resultado da apropriação é compatível com os códigos e normais regimentais das instituições, abrindo espaço para o pecado da heresia, para os ritos da excomunhão ou para a exclusão digital das atuais mídias sociais. Esse é um desafio sempre enfrentado quando se vivencia o desafio de se tornar agente ou representante de uma instituição social. Por esse motivo a apropriação tem sido um conceito central na história cultural, sugerindo uma questão crucial que consiste em compreender o quanto um determinado indivíduo era um agente institucional exemplar ou, contrariamente, o quanto esse indivíduo se afastava das práticas, discursos e ordens da instituição considerada.
A perspectiva histórica sinalizada por Chartier (1990) permite compreender que a sociedade é sempre composta por uma pluralidade de compreensões e que nem todas as vozes comungam do mesmo credo. Seria ilusório pensar que as pessoas sempre recebem passivamente as bases culturais ditadas pela rede hegemônica de instituições sociais de um determinado tempo e contexto. Assim como as apropriações podem entrar em sintonia com os discursos institucionais, podem também revelar uma posição solo, uma escolha divergente em relação ao fluxo mais amplo da sociedade. Desse modo, ao analisar a história do Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte, faz-se necessário tentar discernir até que ponto um determinado personagem perfilava como fiel escudeiro da instituição ou se abria divergência em relação às práticas e discursos usuais.
Na perspectiva histórica teorizada por Chartier (1990) é importante ressaltar que a apropriação não é um processo mecânico ou apenas uma repetição ingênua do discurso oficial. Há uma componente criativa no esforço intelectual de entender o que a instituição quer que o indivíduo entenda. É o caso do bom servidor que aprendeu o sentido exato da meta instituída e assim candidata-se a ser um fiel escudeiro. Mas, por outro lado, devido a essa liberdade criadora dos agentes, corre-se o risco de eles extrapolarem os limites estabelecidos e se tornarem produtores divergentes. É nesse sentido que o autor sinaliza para a existência de uma diferença fundamental entre produção e apropriação. A produção de sentidos divergentes funciona como uma espécie de efeito colateral da apropriação e por isso as instituições geralmente não veem com bons olhos aqueles agentes que se arriscam e produzir novos discursos, práticas e caminhos para resolverem problemas do tempo considerado.
A apropriação é um conceito proposto por Chartier (1990) para pesquisar as práticas e os discursos de uma instituição e aferir o quanto uma pessoa se aproxima ou se afasta das ordens institucionais. É um instrumento para tratar das relações sociais mais expressivas no âmbito de uma instituição. Se por um lado a apropriação proporciona uma formação pessoal para participar da vida institucional, por outro, abre espaço para a possibilidade dessa mesma pessoa enveredar pelos caminhos da produção de práticas e discursos, explorando a criatividade para além dos limites pretendidos pela rede de instituições consorciadas da época considerada.
Na edição do mês de abril de 1905 dos Archivos Brasileiros de Psychiatria, Neurologia e Sciencias Affins, impresso na Tipografia do Hospício Nacional de Alienados do Rio de Janeiro, o psiquiatra brasileiro Juliano Moreira (1872 – 1933) publicou um extenso trabalho histórico sobre a evolução da assistência a alienados no Brasil. Trata-se de um trabalhos com destaque em instituições brasileiras criadas desde a fundação do Hospício de Pedro II, inaugurado em meados do século anterior. Nesse trabalho, há uma referência sobre a inexistência no Mato Grosso, até o referido ano de 1905, de instituição destinada ao tratamento de alienados. Assim, os doentes mentais eram recolhidos em um setor da Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá. O referido autor destacou ainda que em todo o vasto interior do país, a assistência dos alienados ainda era muita precária. Os doentes mais agitados eram recolhidos nas cadeia públicas, enquanto os outros viviam livres pelas ruas da cidade, isso caso fossem indigentes. Ainda de acordo com o autor, os doentes mentais mais abastados ou remediados eram “mais ou menos maltratados em domicílio (...) engrossando a clientela dos curandeiros, ervanários ou não, existentes por toda parte.”
O coronel Pedro Celestino Correa da Costa tomou posse como presidente do Mato Grosso, no dia 12 de outubro de 1908, iniciando seu primeiro mandato de três anos com a proposta de modernizar as instituições do Estado. Logo no ano seguinte, houve a deliberação para construir um prédio púbico, que ficou conhecido como Casarão do Rio Coxipó, conforme consta em mensagem apresentada à Assembleia Legislativa, solicitando a atenção dos deputados para a aprovação do orçamento necessário à realização da obra. O prédio foi construído na margem esquerda do Rio Coxipó, distante cerca de seis quilômetros do centro de Cuiabá, para a instalação de um pelotão especial da polícia militar. O local foi escolhido por questão estratégica de segurança tendo em vista ser uma região de passagem por via fluvial para se chegar à capital mato-grossense. Além de abrigar uma força policial, no mesmo prédio funcionou um presídio especial para onde eram enviados alguns presos políticos e doentes mentais agitados considerados indigentes. No terreno do casarão, foram construídas algumas pequenas casas contíguas, típicas das colônias, para abrigar compulsoriamente doentes mentais crônicos que tinham condições para trabalhar em lavoura de subsistência. Desse modo, após o pavilhão de alienados da Santa Casa de Cuiabá, no Casarão do Rio Coxipó, teve início a institucionalização de alienados no Mato Grosso, com a Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte.
Pesquisa realizada por Lambert e Oliveira (1996), sobre a história dos serviços de atendimento aos doentes mentais de Cuiabá, confirma que o Casarão do Rio Coxipó foi construído em 1909, por deliberação do Governo do Mato Grosso. Essas autoras observam que, a princípio, a finalidade anunciada da construção era para abrigar um quartel de segurança para a capital, mas que prédio também funcionava um presídio para presos políticos e doentes mentais agitados. Naquele momento, a cadeira pública e a Santa Casa eram os únicos espaços até então utilizados para a de reclusão de doentes mentais considerados mais agitados.
No dia 1 de agosto de 1915, foi inaugurado o primeiro Pavilhão dos Alienados, anexo à Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá. Houve um cerimônia para marcar o suposto início de um novo tempo no atendimento filantrópico aos doentes mentais da cidade, conforme noticiou o jornal católico A Cruz, Cuiabá, em edição publicada na referida data. Conforme mostra as mensagens publicadas pelos governos do Estado, em poucos anos, esse Pavilhão de Alienados não mais comportava a demanda existente, levando a construção de um outro espaço de dimensões mais ampla para atender a mesma finalidade.
Na década de 1920, conforme Guedes (2007), a Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte ou Chácara dos Loucos, expressão usada na linguagem vulgar da época, passou a ser o local onde estavam recolhidos todos os doentes mentais da capital mato-grossense. Faz-se necessário observar que as pessoas enviadas compulsoriamente para o local eram consideradas agitados, crônicos e indigentes, pois aqueles de famílias abastadas ficaram recolhidos nas residências particulares. Até então, a cadeira pública e o pavilhão dos alienados da Santa Casa de Misericórdia eram os espaços de reclusão dos doentes mentais de Cuiabá.
Em mensagem enviada à Assembleia do Estado do Mato Grosso pelo então presidente Francisco de Aquino Correa, em 7 de setembro de 1920, consta que estava em construção do Pavilhão dos Alienados anexo ao hospital mantido pela Sociedade Beneficente da Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá. Naquele momento essa instituição filantrópica estava sob a presidência do padre Manoel Gomes de Oliveira, que mantinha a administração da entidade em estreita conexão com as orientações e representações da Igreja Católica sob a liderança do Bispo e Presidente do Mato Grosso. Havia assim o empenho em sanar o problema dos doentes mentais que vivam livres pelas ruas centrais do comércio de Cuiabá. Por outro lado, além de construir o Pavilhão dos Alienados, o governo estava expedindo um novo regulamento para a Polícia Militar, prevendo a instalação de uma Colônia Correcional, anexada à Chácara do Governo localizada à margem o Coxipó da Ponte.
É importante observar que naquele momento da história a grande instituição modelar para o Brasil, em termos de repressão criminal e política, era a Colônia Correcional de Dois Rios, localizada na Ilha Grande, Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Já se tinha plena consciência da insatisfação política que levariam aos movimentos tenentistas que aspiravam maior justiça social e atendimento de saúde e educação para as classes populares. Desse modo, pode-se destacar que a intenção do governo do Mato Grosso construir uma Colônia Correcional estava em sintonia com as práticas de outras instituições congêneres do Brasil. Mas no caso mato-grossense prevaleceu a ideia da Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte, prevaleceu a prática institucional do recolhimento de todos os supostos doentes mentais que estavam vivendo nas ruas centrais do comércio de Cuiabá. Conforme consta na mensagem acima referenciada, naquele momento a cadeia pública estava superlotada, com 33 sentenciados e mais doze “infelizes alienados” que foram enviados para a Colônia do Coxipó.
Durante o governo do Bispo Francisco de Aquino Correia (1918 – 1922), teve início a prática regular do recolhimento compulsório, realizada pelo poder público, de enviar todos os doentes mentais, que até então viviam nas ruas da cidade, para a Colônia dos Alienados do Coxipó da Ponte, localizada na Chácara do Governo, à margem do Rio Coxipó. O casarão construído para abrigar uma força policial que atuaria como sentinela da capital teve seu destino alterado para encarcerar os doentes. Pesquisa realizada por Guedes (2007), citando a monografia de Lambert e Oliveira (1996), confirma essa orientação, ao destacar que no de 1920, todos os doentes mentais sem exceção foram internos nas dependências da Chácara dos Loucos, como o instituição ficou conhecida na linguagem popular. Até então, a cadeia pública e o Pavilhão dos Alienados da Santa Casa eram os espaços de reclusão dos doentes mentais de Cuiabá. Os doentes mais agitados ficavam isolados em celas minúsculas, com porta de ferro e uma pequena janela com grades, localizada bem no alto, de modo a impedir que o recluso olhasse a parte externa, sem nenhum atendimento médico. Outros doentes crônicos tinham acesso ao terreno da chácara, onde trabalham no plantio de roça para a subsistência dos internos.
O segundo Pavilhão dos Alienados, anexo à Santa Casa de Misericórdia, foi inaugurado em 1928, funcionado como mais um capítulo da “institucionalização da loucura em doença mental”, consolidando a prática de valorização dos espaços de exclusão social, conforme destaca Pinho (2011), em um trabalho dedicado às relações existentes entre a Loucura e a Cidade no contexto de Cuiabá do século XX.
Em edição do jornal cuiabano A Cruz, em 7 de fevereiro de 1932, foi noticiado que o Chefe da Polícia de Cuiabá havia enviado ofício ao editor do referido periódico, comunicando que aquela chefatura estava empenhada em ampliar o casarão da Chácara do Governo, que naquele momento, estava servindo há mais de dez anos como Colônia de Alienados. A intenção dessa ampliação do casarão foi justificada para o local alojar, além dos doentes mentais, a velhice desamparada e os menores abandonados da cidade.
Reportagem publicada no jornal A Cruz, de Cuiabá, em 8 de gosto de 1937, postulando maior atenção do governo estadual para o problema da falta de iniciativa para a assistência social. “Pode-se mesmo dizer que o que possuímos de organizado nesse assunto se deve quase exclusivamente à iniciativa particular. Em particular a manutenção da Santa Casa e do Hospital dos Lázaros era gerida pela Sociedade Beneficente e pela Liga Pró-Lázaros. A Santa Casa estava funcionando como creche de criança abandonada, asilo de velhice desamparada, pronto socorro, necrotério, leprosário e manicômio. “Esta pungente realidade mais ao vivo nos fere, quando observamos os nossos institutos de assistência pública, o Asilo de Alienados do Coxipó vale por flagrante exemplo.”
Em edição de 3 de setembro de 1939, o jornal A Cruz, de Cuiabá, divulgou a realização de uma festa benemérita cuja renda seria convertida para a Colônia dos Alienados do Coxipó da Ponte. Iniciativa de um grupo de senhoras da sociedade cuiabana, que pretendiam adquirir alimentos e roupas para os internos do asilo. A programação da festa incluía apresentação de músicos, bailados, declamações, ceia e um baile. Esse evento foi noticiado também em O Estado do Mato Grosso, Cuiabá, 29 de agosto de 1939, destacando a estado de pobreza que estavam vivendo os internos daquela entidade. Essa situação de violência, abandono permaneceu até 1941, quando a instituição deixou de ser vinculada às forças policiais, passando a ser uma instituição vinculada ao Departamento de Saúde do Estado. A primeira decisão dessa nova orientação política foi a contratação de um médico para atender aos internos, recebendo então a denominação oficial de Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte, vinculado ao Serviço de Psicopatas do Estado, como reflexo das orientações ditadas pelo então Ministério da Educação e Saúde.
No início dos anos 1940, havia uma divisão separada do Hospital Colônia para abrigar as mulheres, um espaço separado para a cozinha e um quarto grande com 20 catres para os homens. De acordo com a época, o espaço somente receberia a denominação de “hospital”, quando fosse possível nomear um serviço médico para atender os doentes. A cozinha do estabelecimento funcionava em um espaço separada, anexa à divisão das mulheres, conforme é possível identificar em registros fotográficos disponível no endereço digital do Centro Cultural do Ministério da Saúde. Nesse momento consta que o hospital contava com 48 internos, entre homens e mulheres, três enfermeiros, uma cozinheira e um médico para atender os doentes.
Em 10 de janeiro de 1941, o jornal O Estado do Mato Grosso, Cuiabá, publicou reportagem sobre a situação dos pacientes internados na Colônia dos Alienados do Coxipó da Ponte. Também chamada por termos usuais na linguagem popular da época, tais como “asilo dos alineados”, “manicômio” ou “chácara dos loucos”, Expressões e termos esses que sinalizam as representações sociais predominantes durante grande parte do século XX. “nos arreadores do vizinho distrito de Coxipó da Ponte, estava instalado o Asilo dos Alienados, onde são recolhidos os infelizes atacados por taras que levam à loucura. Bem poucas pessoas tinham hábito de visitar algum paciente internado no estabelecimento que ficava um pouco escondido por uma pequena floresta preservada no seu entorno para supostamente proporcionar um clima mais agradável para as pessoas internadas naquele espaço. Um pouco afastado do povoado do Coxipó da Ponte, no meio de um bosque preservado, o Asilo existe como um espaço à parte da vida do distrito. Médicos que atendiam os pacientes Cerqueira Leite e Aretino Cavalcanti de Matos, no sentido de amenizarem a situação dos doentes. “apesar da situação em se encontrava o estabelecimento era lamentável em termos do estado humano das pessoas, mas, na visão do redator da reportagem era possível notar ali higiene As refeições embora fosse limitada era preparada com cuidado e simplicidade. Os dois médicos tinham por prática liberarem os internos que estivessem em condições de curra para um passeio aos domingos, o que estava dando bons resultados .... José Delmiro da Costa e sua esposa trabalham como zeladores e vigias dos internos....
1941 - Foi assim que, em 1941, a sua denominação passou a ser Hospital de Alienados do Coxipó da Ponte, identificação essa que consta em dois registros fotográficos disponível no endereço digital do Centro Cultural do Ministério da Saúde.
Nesse momento consta que o hospital contava com 48 internos, entre homens e mulheres, três enfermeiros, uma cozinheira e um médico para atender os doentes.
1941 - O encarregado do Asilo fazia um relatório regularmente ao Chefe de Polícia, onde constava a quantidade de internos....e a condição de cada um. Durante do ano de 1940, estavam internados 25 pacientes, sendo 6 homens e 19 mulheres; mas durante o ano seguinte, 15 novos pacientes foram internados, sendo 7 homens e 8 mulheres, houve seis falecimentos (5 homens e 1 mulher) 5 pacientes tiveram alta (2 homens e 3 mulheres). Assim, no momento da reportagem havia 29 internos (6 homens e 23 mulheres) Havia no estabelecimento um livro para os visitantes e personalidades ilustres da pudessem registrar suas impressões sobre o hospital. Consta no registro jornalístico que o próprio Juiz de Direito e o Chefe da Polícia da Capital daquele Estado deixaram anotadas suas boas impressões decorrente do serviço e atenção dos funcionários .... Os médicos informaram ao redator da reportagem que a Colônia de Alienados passaria a depender dos recursos do Departamento de Saúde Pública conforme orientação do governo estadual .. levando a uma expectativa de melhorar as condições gerais do estabelecimento Tendo em vista o atendimento de pessoas vindas de outros municípios.
1942 – Decreto n. 4368, de 22 de janeiro de 1942, assinado pelo Interventor Federal no Mato Grosso, nomeou o médico Oswaldo Domingues de Morais, indicado pelo Ministério de Educação e Saúde ao Departamento de Saúde Mental do Estado, para exercer o cargo de médico psiquiatra do Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte.
1942 – Em edição de 2 de agosto de 1942, o jornal O Estado de Mato Grosso, de Cuiabá, noticiou....... a divulgação do relatório elaborado pelo médico Oswaldo Domingues de Morais, psiquiatra do Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte, que estava encarregado pelo governo para organizar o serviço estadual de assistências aos psicopatas de Mato Grosso. O relatório foi endereçado ao juiz encarregado da Justiça Criminal da Comarca de Cuiabá, que havia solicitado os préstimos do psiquiatra, em sintonia com as orientações da “moderna criminologia e com base nos fundamentos científicos das técnicas psiquiátricas.” Esse relatório incluía a sugestão de um plano geral para sanar o problema da ausência de normas para gerir o sistema presidiário do asilo do Coxipó da Ponte, que estava funcionando em desacordo com a legislação federal de saúde pública e dos serviços de assistência social. ..... sistema penitenciário ....e dos presidiários condenados pela justiça .....o Interventor Federal do Mato Grosso havia solicitado o empenho .... “para resolver um dos mais sérios problemas do Estado no âmbito jurídico e social, ....Com base no relatório apresentado, bem como em projetos sobre a Colônia das Palmeiras, elaborado pelo Dr. Palmiro Pimenta, visando equiparar o Mato Grosso ao que havia de mais atual nos Estados mais desenvolvidos do país.
1944 – O médico Benedito Reis, então diretor do Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte, concedeu entrevista ao redator do jornal O Estado de Mato Grosso, imprenso em Cuiabá, em edição de 26 de março de 1944. O médico acaba de retornar de um estágio realizado em São Paulo, onde pode conhecer novas possibilidades para o tratamento de algumas doenças mentais, através de intervenção cirúrgica no cérebro. O diretor explicou que os tratamentos até então utilizados, incluindo o uso do cardiazol, insulinoterapia e convulsoterapia não estavam apresentando resultados satisfatórios, o que levou médios da Europa e dos Estados Unidos a acreditarem na possibilidade da chamada Lobotomia, que poderia deixar sequelas irreversíveis no pós-operatório. Ainda no mesmo ano, o Dr. Benedito Reis solicitou exoneração do cargo por motivo de transferência para a capital paulista onde continuou a trabalhar como psiquiatra.
1944 – O médico psiquiatra Manoel Vargas chegou para trabalhar em Cuiabá....fez um relatório ao Governo Federal, relatando as péssimas condições do hospital e assistência mental de modo geral.
Em 1944 chegou a Cuiabá um médico psiquiatra vindo de Minas Gerais, doutor Vargas, que enviou um relatório ao governo mencionando as condições precárias em que se encontrava a assistência mental.
Contudo, somente em 1955, Adauto Botelho, então diretor do Serviço Nacional de Doença Mental, fi rmou um convênio com o governo de Mato Grosso para a construção de um hospital psiquiátrico, o que ocorreu em 1957. Permaneceu como o único hospital, apesar do intenso fl uxo migratório da década de 1960, que aumen tou enormemente a população do estado. Nessa época, o HPAB tinha capacidade para 250 pacientes e abrigava 500.
Em 1975, com a elaboração do Manual de Assistência Psi quiá trica na Previdência Social, outros profi ssionais, além dos médicos e enfermeiros, passaram a compor as equipes multiprofi ssionais em serviços de atenção à saúde mental, entre eles o psicólogo. Em 7 de outubro de 1975, criou-se o Serviço de Saúde Mental no estado, sendo uma de suas ações a ampliação do HPAB e mudança nos aspectos técnicos e administrativos, além da realização de um censo no hospital com o intuito de diagnóstico psicosso – Silva (2011)
1950 - No dia 28 de abril de 1950, o jornal O Estado de Mato Grosso, de Cuiabá, noticiou a chegada à cidade do médico e professor Adauto Botelho, então Diretor do Serviço Nacional de Doenças Mentais. O propósito da viagem era analisar junto ao governo estadual as condições para a construção de um novo Hospital Psiquiátrico, na margem esquerda do Rio Coxipó, nas proximidades da antiga Colônia de Alienados. Ficou então acertada a construção de novo hospital, cujas levariam vários anos para serem concluídas.
1953 – No dia 26 de julho de 1953, o jornal O Estado do Mato Grosso publicou uma crônica escrita por Darcy Gomes de Barros, redator chefe do periódico imprenso em Cuiabá, focalizando uma visita que ele havia feito ao Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte. Naquele momento a instituição estava sob a direção do psiquiatra Manoel Vargas, que desde há quase uma década estava atuando como psiquiatra com consultório médico em Cuiabá, conforme Silva (2011).
Primeiramente, o cronista descreve a visita ao Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho que estava ainda sendo construído.
Havia então a expectativa de que o novo estabelecimento traria um novo tempo para o tratamento psiquiátrico em Cuiabá, com instalações e equipamentos mais adequados, em relação às condições lastimáveis da Colônia de Alienados. O médico Manoel Vargas explicou ao visitante que a maioria dos casos então existentes no Hospital Colônia era de doenças crônicas sem perspectivas de solução plena, indicando a importância de o tratamento ser iniciado o mais rápido possível, assim que as pessoas vivenciam as primeiras crises. Essa deveria ser a orientação a ser implementada com a esperada inauguração do novo hospital, cuja planta o diretor mostrou ao cronista. Estava previsto a construção de uma quadra de esporte para uso dos internos, condição que seria bem diferentes dos internos na Colônia, onde todos que tivessem condições deveriam trabalhar durante o dia. Para finalizar a descrição de sua impressão, o cronista observou que um dos maiores problemas daquele momento era a convivência de doentes mentais crônicos e outros doentes que haviam cometido crimes e estavam internados por determinação da justiça.
1955 – O Governo do Mato Grosso assinou convênio com Serviço Nacional de Doença Mental, então sob a direção de Adauto Botelho, para a construção de um hospital psiquiátrico, que foi inaugurado em 195, com capacidade para 250 pacientes, mas que normalmente atendia muito mais permaneceu como o único hospital, apesar do intenso fluxo migratório da década de 1960, que aumentou enormemente a população do estado. Nessa época, o HPAB tinha capacidade para 250 pacientes e abrigava 500. ..... intenso fluxo migratório dos anos 1960.
1957 – Ao descrever informações sobre as origens históricas instituições de saúde mental de Cuiabá, Mato Grosso, Silva (2011) observa que o Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho da mencionada capital foi criado em substituição ao antigo Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho (HPAB), fundado em 1957. Portanto, a referência da referida autoria coincide com as informações disponibilizadas pelo site da Secretaria de Saúde, quanto a trajetória do HPAB que teria funcionado até 1991. Por outro lado, a mesma referência mencionada que esse antigo hospital psiquiátrico de Cuiabá, teria sido construído no mesmo local da antiga Chácara dos Loucos. Expressão essa usada na linguagem popular para que referir ao Hospital de Alienados do Coxipó da Ponte, denominada afixada às duas fotos ilustrativas deste artigo. Assim, ao rastrear informações sobre as primeiras instituições psiquiátricas de Cuiabá, faz-se necessário evidenciar esse período, entre a construção do Casarão do Coxipó, ...
1957 - No ano de 1957, foi inaugurado o Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, com capacidade para atender 120 pacientes, mas durante alguns anos, os dois hospitais funcionaram em paralelo devido à elevada demanda existente. Por outro lado, na Colônia continuaram muitos moradores idosos, sendo alguns deles portadores de hanseníase, pênfigo foliáceo ou sífilis, pensando na época ser mais indicado manter o isolamento social desses pacientes crônicos.
1957 - O histórico publicado pela Secretaria Estadual de Saúde do Mato Grosso indica que o Hospital Adauto Botelho de Cuiabá foi inaugurado em 1957, com base em convênio assinado entre o Governo do Estado e o Serviço Nacional de Doenças Mentais. Desse modo, faz-se necessário destacar que na mesma década, havia outras instituições no país com a mesma denominação de Hospital Adauto Botelho, pelo menos, em Goiânia (GO) e Vitória (ES). Razão pela qual permite identificar o reconhecimento político concedido por governos estaduais ao então diretor do Departamento Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde.
1964 - Luzes da razão apagada Coxipó - Em edição do dia 19 de julho de 1964, o jornal Tribuna Liberal, de Cuiabá, publicou notícia sobre o estado que se encontrava o Hospital Colônia de Alienados de Coxipó da Ponte...observado que muito do projeto inicial ainda não estava concluído, devido ao problema da falta de verbas e o fato de poucas famílias lembrarem dos parentes internados. ...73 mulheres e 71 homens estavam internados, alguns estavam na instituição há mais de 20 anos, construído para atender o máximo de 90 internos, razão pela qual muitos doentes não tinha camas para dormir, e ficavam deixados sobre um pedaço de papelão. Os mais mansos ficam no pátio aberto, tomando banho de sol, mas os que recebem o eletrochoque ficam mais de uma horda desacordado.
1967 – O Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte teve a sua denominação alterada para Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, de acordo com a Lei Estadual no 2755, de 13 de julho de 1967. A mudança de denominação do Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte foi uma homenagem póstuma ao médico Adauto Junqueira Botelho (1895 – 1963) conhecido psiquiatra e neurologista no Rio de Janeiro, professor universitário, que trabalhou no setor particular e público. Exerceu o cargo de diretor do Serviço de Assistência a Psicopatas do Distrito Federal (1937). Posteriormente, profissional de confiança do Presidente Getúlio Vargas, foi diretor do Serviço Nacional de Doenças Mentais, até meados da década de 1950. Conforme Martins (2018), ao descrever anotações biográficas de médicos que atuaram no Hospital Nacional de Alienados do Rio de Janeiro.
Considerações finais
1968 - “Em 1968 foram abolidas as antigas práticas de atendimento, permanecendo o eletrochoque e iniciando uma nova fase terapêutica à base de psicofármacos. Em 1970 havia 600 pacientes internos no Adauto Botelho, até então o único Hospital Psiquiátrico de Cuiabá. Todas as formas de experimentação com o louco como forma de tratamento persistia nos preceitos científicos da área psiquiátrica.” (Guedes 2007)
1972 - 15 de março de 1972 – O Estado do Mato Grosso....”Cuiabá Precisa de um Manicômio Judiciário. Demanda apresentada pelo titular da Segunda Vara Criminal e de Menores de Cuiabá...ao presidente do Tribunal de Justiça ....sobre o que entendia ser a necessidade de ser construção em Cuiabá um manicômio judicial. Os juiz encaminhava esses casos para o Hospital Adauto Botelho .....não tinha condições de receber tais sentenciados...O juiz de direito não pode soltar porque, além de serem criminosos, são perigosos pela própria loucura. A política, por sua vez, não dispõe de celas adequadas e a solução improvisada consiste em enclausurá-los com presos comuns o que é profundamente prejudicial aos alienados e ao processo de reabilitação dos sentenciados.
1975 – manual de Assistência Psiquiátrica na Previdência social .....além de médicos e enfermeiros, psicólogos, outros profissionais da área de saúde passaram a prestar serviços em equipes multiprofissionais. Em serviços de saúde mental, ... nesse mesmo ano criado o Serviço de Saúde Mental do Estado, com a ampliação do HPAB e alterações dos procedimentos ...incluindo a realização de um censo interno no hospital para um diagnostico psicossocial dos internos..“Não há registros precisos sobre a data de início do trabalho do psicólogo no serviço de saúde mental em Mato Grosso, porém infere-se que ocorreu nesse período.” ‘
1978 – “Estado do Mato Grosso foi dividido e em 1988, com a implantação do SUS, iniciou-se a construção de uma rede assistencial regionalizada e hierarquizada. Entretanto, com o intenso crescimento populacional posterior à divisão do estado, o atendimento era insuficiente em relação à demanda.”
Referências
CANOVA, L. A loucura e as construções discursivas na história cuiabana. Revista Fragmentos de Cultura. Goiânia, v. 16, n. 11/12, p. 991-1007. 2006. In file:///C:/Users/luiz6/Downloads/humbertoalves,+190-653-1-CE%20(2).pdf. Acesso em 11 de maio de 2024.
JACÓ-VILELA, A. M.; Dicionário Histórico de Instituições de Psicologia do Brasil. Coordenação geral de Ana Maria Jacó-Vilela. Rio de Janeiro: Imago, 2011.
MARTINS, Y. Adauto Junqueira Botelho: médicos que atuaram no Hospital Nacional de Alienados. Biblioteca Virtual em História do Patrimônio Cultural da Saúde, 2018. https://hpcs.bvsalud.org/vhl/temas/historia-saberes-psi/medicos-2/. Acesso realizado em 13 de junho de 2025.
MATO GROSSO (ESTADO). Leis do Estado de Mato Grosso de 1967. Disponível: https://storage.al.mt.gov.br/api/v1/download/default/675691. Acesso realizado em 21 de junho de 2025.
MATO GROSSO (ESTADO) Mensagem do Presidente Francisco de Aquino Correa de 7 de setembro de 1920. Acesso realizado em 23 de junho de 2025: https://digitalcollections.crl.edu/record/3607?ln=en&v=uv#?xywh=-2032%2C231%2C6031%2C3780&cv=74.
MATO GROSSO (ESTADO). Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho. Dados divulgados no site da Secretaria de Saúde do Estado. Acesso realizado em 17 de julho de 2025: https://www.saude.mt.gov.br/unidade/centro-integrado-de-assistencia-psicossocial-ciaps-adauto-botelho.
SILVA, V.F.S.; Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho (1957-1991) Dicionário Histórico de Instituições de Psicologia do Brasil. Ana Maria Jacó-Vilela (Org.) Rio de Janeiro: Imago, 2011.
CANOVA, Loiva. A loucura é uma loucura: as representações sobre o louco e a ordenação do espaço urbano em Cuiabá (1889-1931). Monografia de Especialização em História. Cuiabá: UFMT, 2000.
CHARTIER, R. A história cultural: Entre práticas e representações. (M. M. Galhardo, Trad.). Rio de Janeiro: Bertrand. 1990.
LAMBERT, Áurea; OLIVEIRA, Sueli. História do atendimento ao doente mental no Estado de Mato Grosso até 1970. Monografia (Especialização em Saúde Mental). Cuiabá: UFMT, 1995.
MOREIRA, Juliano. Notícia sobre a evolução da assistência a alienados no Brasil. Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins, v. I, n. 1, p. 52-98. Acesso realizado no link https://memoria.bn.gov.br, em 30 de junho de 2025.
PINHO, Raquel. Cidade e loucura: entre o censo de 1890 e a inauguração do pavilhão dos alienados em Cuiabá. Dissertação (Mestrado em História). Cuiabá: UFMT, 2006.
GUEDES, S. C. C. A Chácara dos Loucos e o imaginário sobre a loucura. Simpósio Nacional de História. Associação Nacional de História. 2007. Disponível em https://anpuh.org.br. Acesso realizado em 21 de junho de 2025.
SANTOS, M. S. Os Porões da República: A colônia Correcional de Dois Rios entre 1908 e 1930. In TOPOI, v. 7, n. 13, 2006. Acesso em 23.06.25: https://www.scielo.br
Luiz Carlos Pais e Simone Silveira Cougo
Enviado por Luiz Carlos Pais em 08/01/2026
Alterado em 21/06/2026