Luiz Carlos Pais
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. (Fernando Pessoa)
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Sanatório Mato Grosso
Este artigo descreve aspectos históricos da construção e funcionamento inicial do Sanatório Mato Grosso (atual Hospital Nosso Lar), primeiro estabelecimento psiquiátrico de Campo Grande, hoje capital do Mato Grosso do Sul. Os eventos focalizados percorrem três décadas a partir do ano de 1947, quando teve início as primeiras promoções em prol da construção do hospital e terminam com a criação do Estado de Mato Grosso do Sul, pela lei complementar no 31, de 11 de outubro de 1977. As fontes pesquisadas incluem registros na imprensa periódica, memórias de autores regionais, registros fotográficos, entre outras referências. Esse material foi analisado com base nos pressupostos da História Cultural, na linha proposta por Peter Burke e outros autores da terceira geração da Nova História, adotando como procedimentos metodológicos a extração de uma ampla coligação de unidades de significado que foram submetidas a sucessivos fluxos de interpretação hermenêutica. Foi possível contatar que as condições sociais, históricas e econômicas que permitem a construção do Sanatório Mato Grosso, tendo como instituição mantenedora o Centro Espírita Discípulos de Jesus, estavam associadas ao contexto político em prol da criação do Estado de Mato Grosso do Sul, tendo Campo Grande como principal polo de desenvolvimento da antiga região sulina do Mato Grosso. Três principais forças sociais permitiram a realização da obra empreendida pela comunidade espírita local sob a liderança de Maria Edwiges de Albuquerque Borges: a expressiva expansão demográfica de Campo Grande como resultado da inauguração da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a expressiva força econômica e política da pecuária de grande porte e o advento de grandes unidades militares estratégicas do Exército Brasileiro.
Palavras-chaves: Sanatório Mato Grosso, Saúde Mental em Campo Grande, saúde mental no Mato Grosso do Sul.

1. Considerações iniciais
Este artigo descreve os resultados de um projeto realizado com o objetivo de conhecer a história do Sanatório Mato Grosso, cuja denominação foi alterada para Hospital Nosso Lar, primeira instituição psiquiátrica de Campo Grande (MS). Mais especificamente a intenção é tratar do problema das fontes e memórias que possam ser analisadas em sintonia com o contexto econômico, político e social no qual o hospital foi construído e inaugurado em 27 de janeiro de 1966, tendo como mantenedora o Centro Espírita Discípulos de Jesus. O hospital está atualmente equipado com 180 leitos, com alas para homens e mulheres, atendendo pacientes particulares e pelo Sistema Único de Saúde.
Cumpre destacar que durante mais de meio século a comunidade espírita de Campo Grande contou com a liderança e expressivo engajamento de Maria Edwiges de Albuquerque Borges, falecida no dia 25 de julho de 2000, aos 84 anos de idade. Casada com o major Gumercindo Bruno Borges, oficial do Exército Brasileiro, a líder espírita foi a grande incentivadora da realização do projeto e participante ativamente na coordenação de várias campanhas para arrecadação de fundos para a construção do prédio. De forma análoga, buscou financiamento público e apoio político junto ao Governo do Mato Grosso e ao Ministério da Saúde para aquisição dos equipamentos, incluindo a compra de um eletroencefalograma importado da França. A construção do prédio e aquisição dos equipamentos levaram quase 20 anos de trabalhos liderados por Maria Edwiges que, após a inauguração, administrou o hospital por três décadas.
Os principais desafios encontrados na realização do objetivo de conhecer a história da instituição psiquiátrica constituem o problema de localizar e analisar as fontes necessárias para compreender os fatos históricos, além das memórias escritas por autores que viveram a trajetória da instituição, assim como inserir a constituição do hospital no quadro histórico, econômico e social do território no qual foi criado do Estado do Mato Grosso do Sul. O desafio de localizar as fontes históricas foi trabalhado no projeto através de busca criteriosa de registros hoje disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no acervo digital da Revista Reformador, da Federação Espírita Brasileira, o qual foi disponibilizado a partir d 2021, com exemplares publicados entre 1883 e 2019.

2. Referencial teórico
A perspectiva histórica que embasou a pesquisa descrita neste artigo está fundamentada na visão do historiador francês Jacques Le Goff e de outros autores que seguem os pressupostos da chamada Escola dos Annales. Trata-se de um movimento de renovação dos fundamentos e métodos da produção da história, iniciado pelos historiadores franceses Lucien Febvre e Marc Bloc, em 1929, quando ambos eram professores da Universidade de Estrasburgo. A proposta inicial desse movimento foi sinalizar um caminho inovador possível para superar a visão positivista da história que exerceu influência quase absoluta até as primeiras décadas do século XX. Até o advento doloroso da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), predominava a história concebida apenas do ponto de vista eventual, como se fosse uma sucessão cronológica de fatos supostamente objetivos. Os historiadores da Escola dos Annales propuseram a superação da história eventual, passando a conceber os fatos históricos como expressão de um espaço de poder social, político, econômico e cultural.
Não se trata de acreditar que houve uma mudança radical ou absoluta em 1929, quando ocorreu a grande crise econômica e foram lançadas as bases de uma nova forma de pensar a história escrita. Conforme Bloch (2001), a partir da grande depressão econômica começa a ser construído um novo paradigma que consiste em considerar a precedência do espírito da época que funciona como cenário de fundo das escolhas e das realizações pessoais ou institucionais. Com base nesse referencial, além da tarefa de analisar eventos históricos, em sintonia com a crítica social, relacionados a constituição do Sanatório Mato Groso, admite-se a importância de considerar a precedência do contexto social, político e econômico, assim como natureza da questão histórica considerada.
Com base no referencial da História Nova, expressão essa utilizada para designar a terceira geração de autores da Escola dos Annales, o desafio maior da pesquisa relatada neste artigo consiste em entender os principais pilares de sustentação da história do primeiro hospital psiquiátrico de Campo Grande. Essa maneira de entender a história parte do princípio de que além dos protagonistas dos eventos históricos estavam as condições da época considerada. Portanto, o problema histórico focalizado consiste em articular, tanto quanto for possível, eventos relacionados à construção e ao funcionamento inicial do Sanatório Mato Grosso com o contexto social, político e econômico da cidade de Campo Grande, quando florescia as bases para a constituição do Mato Grosso do Sul.
Essa maneira de conceber a história do primeiro instituição psiquiátrica de Campo Grande resultou da interpretação que os autores deste artigo fizeram das posições descritas por Le Goff (1990), membro da terceira geração de autores do movimento historiográfico acima mencionado. A escolha desse referencial possibilitou a abertura de um campo de investigação no qual floresceu a conceito de história-problema, que consiste em eleger uma questão diretriz para orientar a escolha e analise das fontes. Assim, no caso da história focalizada neste artigo a questão diretriz consiste em indagar: Qual foi o contexto social, econômico e político de constituição do primeiro hospital psiquiátrico de Campo Grande, nas três décadas anteriores à criação do Estado de Mato Grosso do Sul?
Termo de origem alemã, o zeitgeist é um conceito utilizado por autores da história nova para enfatizar a necessidade de o historiador entender o espírito característico da época focalizada. Por mais difícil que seja adotar esse preceito, a escrita da história é uma tentativa de retornar ao passado a partir do presente, com base no paradigma predominante em um determinado tempo. Deve-se ter muita cautela na condução desse retorno ao passado porque não se trata de acreditar em uma suposta verdade absoluta dos fatos históricos, os quais são produzidos e escritos pelo historiador a partir de suas escolhas e referências. O referido conceito foi desenvolvido para minimizar o risco de cometer o pecado do anacronismo, temido no âmbito do ofício do historiador, ao evitar o equívoco de confundir ideias, mentalidades e condições do passado, como se houvesse uma divisão mágica entre o antigo e moderno. (BLOCH, 2002)
O engajamento da comunidade espírita local na construção do Sanatório Mato Grosso exemplifica a necessidade de considerar o clima da época, quando vários outros sanatórios espíritas foram criados no Brasil, a partir das primeiras décadas do século XX. Abre-se assim uma temática histórica de interesse social para melhor entender esse movimento para tentar amenizar do grave problema da falta de opções institucionais para o tratamento de transtornos mentais. Assim, o referencial teórico escolhido leva a uma necessária ampliação do olhar histórico, além das fronteiras doutrinárias de uma determinada instituição. Por outro lado, trata-se de valorizar o diálogo entre diferentes disciplinas para a produção dos fatos históricos, considerando as evidências proporcionadas pelas ciências da saúde mental. Uma ampliação do trabalho realizado por historiadores interessados com aspectos específicos de outras áreas de conhecimento.
Está inserido na linha de valorização do diálogo interdisciplinar na história a tese O Mundo Mediterrâneo na Época de Felipe II, de Fernand Braudel (2016), mostrando relações entre História e Geografia. Além das condições geográficas naturais, tem os caminhos construídos pelos pioneiros, que no caso do trabalho descrito neste artigo pode ser ilustrado pela instauração da cultura pastoril e do regime austero das longas distância como a antiga região sulina do Mato Grosso. Nesse sentido, é oportuno para ressaltar as especificidade do território onde floresceram as raízes do Mato Grosso do Sul, conforme observa Sodré (1941). A pecuária bovina de grande porte, a localização geográfica distante dos grandes centros urbanos daquela época, a Estrada de Ferro e a presença importante do Exército Brasileiro na região foram elementos fundamentais para compor a história da primeira instituição psiquiátrica de Campo Grande.
Com base nas referências acima descritas, ao rastrear fontes para a escrita da história do Sanatório Mato Grosso, faz-se necessário considerar o contexto regional de Campo Grande, no período de três décadas a partir dos meados da década de 1940. Trata-se de um contexto resultante das condições geográficas, econômicas, políticas, religiosas e sociais. Esse tempo foi marcado por acirrados embates políticos em favor da divisão geográfica do antigo Mato Grosso. Mas, a possível criação de um novo Estado dependia da existência de certas instituições nas áreas de saúde, educação, segurança, entre outras. Desafios superados pela união de poderes oriundos direta ou indiretamente da riqueza proporcionada pela pecuária. Assim, naquele momento, um dos setores mais carentes da região era a inexistência de um hospital psiquiátrico, conforme consta em documento de 1950 do Ministério da Educação e Saúde, em resposta à solicitação de autorização para a construção do Sanatório Mato Grosso.
Para entender as raízes do território onde foi instaurado o Estado de Mato Grosso do Sul, criado pela lei complementar no 31, de 11 de outubro de 1977, cenário mais amplo na história focalizada, faz-se necessário considerar as bases econômicas, políticas e sociais da antiga região sulina do Mato Grosso e o longo embate para a criação de uma nova unidade federativa do Brasil. Desse modo, o caminhado considerado neste artigo segue a visão do historiador brasileiro Nelson Werneck Sodré (1911 – 1999), que conheceu a região, no início dos anos 1940, quando serviu como oficial do Exército Brasileiro na Circunscrição Militar de Campo Grande. As especificidades da região o levou a escrever a Oeste: Ensaio sobre a Grande Propriedade Pastoril. Essa obra publicada em 1941, é referência para conhecer o território onde nasceu o Mato Grosso do Sul.
Ao descrever o sistema de constituição da grande propriedade pastoril, Sodré (1941) analisa a expansão econômica da região, a chegada dos primeiros rebanhos de gado e formação das bases para a pecuária bovina da região. Desse modo, para se ter uma visão do cenário no qual o Sanatório Mato Grosso foi construído, faz-se necessário considerar que o projeto resultou de três fontes articuladas: o poder econômico da pecuária bovina de grande porte, o regime das longas distâncias e a consequente chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e a importância da presença de grandes unidades do Exército Brasileiro em Campo Grande e região.
A riqueza econômica proporcionada pela pecuária bovina de grande porte impulsionou as condições políticas de criação do Estado de Mato Grosso do Sul. Os trilhos da Noroeste do Brasil trouxeram riqueza e facilitou a expansão de cidades do interior, mas trouxe também um movimento migratório desordenado, gerando desigualdades sociais e atraindo muitas pessoas que chegavam à região em busca de melhores condições de vida. Notícias publicadas em jornais da época indicam que pessoas com transtorno mental, com hanseníase ou pênfigo foliáceo chegavam à Campo Grande em busca tratamento, porém tendo suas passagens ferroviárias pagas por autoridades de cidades do interior de São Paulo. Abre-se assim a necessidade de conhecer melhor a história do Sanatório São Julião, especializado em hanseníase, inaugurado em 5 de agosto de 1941, com a presença do Presidente Getúlio Vargas. No final da mesma década, surgem as primeiras ações para criação do Hospital Mato-Grossense do Pênfigo, tendo como mantenedora uma divisão da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

3. Sanatórios espíritas no Brasil
Para visualizar o contexto campo-grandense dos meados do século XX, faz-se necessário articular a construção do Sanatório Mato Grosso com o que estava acontecendo na época em várias outras cidades do interior do Brasil. Os eventos locais estavam inseridos em um quadro mais amplo da história de longa duração dos vários sanatórios espíritas que existiram ou que ainda existem no país. Nesse sentido, a inauguração do hospital contou, por exemplo, com a parceria do Sanatório Bairral de Itapira (SP), onde foi treinada a primeira equipe de enfermagem psiquiátrica para atender uma das normais exigidas na época para obter a autorização de funcionamento do hospital.
A mencionada equipe foi escolhida no seio da comunidade espírita de Campo Grande, visando facilitar a condução de procedimentos na interface que durante anos prevaleceu nas relações entre referências espíritas e transtorno mental. São condições históricas pertencentes ao clima predominante na época e que por certo ultrapassam a comunidade espírita local. Durante quase duas décadas, tempo que levou a construção do prédio, buscou e recebeu apoio político nacional importante, como a obtenção de um decreto assinado pelo Presidente Getúlio Vargas, indicando a utilidade pública do projeto que estava em fase inicial. Mas houve ainda a precedência do apoio de outras instituições espíritas do país, que intercederam em favor da obra liderada por Maria Edwiges.
As raízes históricas do Sanatório Mato Grosso têm relações diretas com a história de vários outras instituições espíritas brasileiras que se dedicaram ou ainda dedicam ao serviço religioso e social de atendimento à pessoas portadoras de algum tipo de sofrimento mental grave. Essa dimensão começa a desenvolver em 1865, quando foi organizado o primeiro grupo espírita brasileiro em Salvador (BA), sob a direção do professor e jornalista Luiz Olímpio Teles de Menezes. Machado (1983) afirma que logo em seguida à criação do grupo espírita, foi criado um jornal para divulgar a doutrina kardecista. Foi lançado então o jornal “Eco de Além-túmulo”, cuja primeira edição circulou no dia 8 de março de 1869, trazendo em epígrafe o lema “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”, reservando uma seção para mensagens escritas autores espíritas com orientações para o desenvolvimento espiritual e cuidados para manter a saúde mental.
A propósito da atividade espírita relacionada com a saúde mental, cumpre destacar que na edição de no 5 do jornal Eco de Além-túmulo, do mês de março de 1870, há um extenso artigo doutrinário tratando do “Testemunho histórico do êxtase espiritual e da faculdade mediúnica de curar”. (Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional). Em outros termos, sete décadas após, essa suposta faculdade religiosa da cura de doentes mentais é compartilhada, em Campo Grande, por Maria Edwiges, que por cerca de duas década manteve o seu receituário espírita, encontros que prescrevia remédios para as pessoas que recorriam ao serviço gratuito realizado todas as tarde do Centro Espírita.
A partir dos anos 1920 e até meados do mesmo século, vários sanatórios espíritas foram criados no Brasil. Informações disponíveis no acervo da Revista Reformador indicam o funcionamento do Sanatório Espírita de Gopoúva (1920), Hospital Espírita de Porto Alegre (1926), Sanatório Espírita de Uberaba (1933), entre vários outros. Um recorte mais específico pode empreendido para entender quais eram os métodos de tratamento adotados nesses estabelecimentos além das práticas espíritas. É possível localizar procedimentos identificados com os mais variados termos, tais como: psicoterápicos, hidroterapia, insulinoterapia, eletroconvulsoterapia, entre outros. Vários desses hospitais psiquiátricos, assim como aqueles destinados ao tratamento da hanseníase ou pênfigo foliáceo eram construídos em região afastada do centro da cidade. Em Campo Grande, o Sanatório São Julião e o Hospital Mato-Grossense do Pênfigo foram construídos cerca de 15 quilômetros do centro da cidade daquela época.

4. Maria Edwiges de Albuquerque Borges
Maria Edwiges de Albuquerque nasceu no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, no dia 18 de outubro de 1915, filha de Dona Cláudia Alves de Albuquerque e do médico sanitarista José de Albuquerque, que durante alguns anos trabalhou no serviço de profilaxia rural na Ilha do Governador. Dona Cláudia Alves era de uma grande família de pecuaristas do município de Porto Murtinho, hoje Mato Grosso do Sul. São informações contidas nos livros de Brunet (2014) e Melo (2019), assim como no artigo de Fonseca (2000) e outros registros extraídos do acervo da Revista Reformador. Nesse sentido é possível conhecer a trajetória de Maria Edwiges e do seu engajamento na construção do SMT de Campo Grande, assim como de sua expressiva atuação em outras instituições sociais da cidade.
Em função sua especialidade, o médico José Albuquerque, ainda solteiro, aceitou o convite para trabalhar na construção da Estrada de Ferro no entre Campo Grande e Porto Esperança. As obras dessa ferrovia tiveram início do ano de 1909, com o propósito de conectar Bauru, no interior de São Paulo, à região oeste, fronteira do Brasil com a Bolívia. Alguns anos após a conclusão das obras, em 1914, as empresas construtoras da ferrovia foram federalizadas para constituir a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Iniciou então um novo tempo de progresso na região que levaria à instauração do território sul-mato-grossense.
A partir da inauguração da ferrovia em toda a sua extensão, houve um intenso movimento migratório para a região, com abertura de novas fazendas, e expansão econômica proporcionada por melhores condições de transporte do gado para as fazendas de engorda do Estado de São Paulo ou do Triângulo Mineiro. Imigrantes árabes e europeus, até então instalados no movimentado comércio de Corumbá, visualizaram novas possibilidades de negócios nas atuais cidades de Miranda, Aquidauana, Campo Grande e Três Lagoas. Estava assim formado o tripé da expansão da região, constituído pelas novas condições do transporte ferroviário, pela pecuária bovina e pela necessária instalação de grandes unidades do Exército Brasileiro na região.
O principal desafio da construção da ferrovia, no trecho mais próximo à margem esquerda do Rio Paraguai, foram as obras de elevação do nível do terreno para assentamento dos trilhos. Essa solução foi necessária para atravessar a região de terras alagáveis próximas ao sul do Pantanal. Razão pela qual havia muitos casos de malária. Após o término das obras, Dr. Albuquerque e Dona Cláudia Alves casaram-se e foram morar no Rio de Janeiro, devido às condições de trabalho do setor de saúde pública, assim como onde teria melhores condições de cuidar de sua saúde, pois havia ele próprio contraído malária nas áreas pantanosas do sul do Mato Grosso. Assim, com apenas dez anos de idade, Maria Edwiges e seu único irmão ficaram órfãos de pai, falecido em 1930, em consequências de complicações da malária. Com a morte do marido, Dona Cláudia Alves resolveu retornar com os filhos para a fazenda da família, no município de Porto Murtinho.
Após completar o curso primário com mestre-escola particular, a jovem Maria Edwiges foi estudar no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora de Corumbá, onde, em suas horas de laser começou a leitura de obras clássicas da doutrina espírita, seguindo orientações de familiares que eram simpatizantes das doutrinas kardecistas. Após completar a primeira fase do secundário, a jovem foi estudar em Cuiabá para estudar no curso clássico, pois pretendia se preparar para cursar Medicina. Posteriormente, foi complementar o ensino secundário em renomado colégio católico do Rio de Janeiro.
Maria Edwiges e Gumercindo Borges casaram-se no dia 31 de janeiro de 1935, sendo alguns anos depois o jovem tenente foi transferido para servir na Circunscrição Militar de Campo Grande. A partir de 1942, quando o casal já havia fixado residência na cidade, Maria Edwiges começou a frequentar o Centro Espírita Discípulo de Jesus. Conforme anotações de Melo (2019), na mesma época, também frequentavam a mesma instituição, Raphael Tessitore, Rogério Caminha, Eurico Medeiros Osório, Diogo Malheiros, Pedro Cunha, Ofélia Bacha, Constantino Lopes Rodrigues. A partir de 1945 e durante cerca de duas décadas, Maria Edwiges atuou no chamado receituário espírita, prescrevendo indicações terapêuticas para pessoas que buscavam alguma alívio para suas dores. Porém, após a inauguração do hospital, essa atividade do receituário foi interrompida pela líder espírita por ser incompatível com o atendimento que passaria ser feito por um médico. O sonho de estudar medicina não pode ser realizado, mas essa atividade de assistência espiritual foi realizada por longos anos.
Conforme consta no acervo secular a Revista Reformador, publicada pela Federação Espírita Brasileira, desde o início do século XX, há vários registros de seguidores da doutrina kardecista praticantes do chamado receituário espírita ou receituário terapêutico espírita, prática considerada mediúnica e supostamente orientadas por espíritos de médicos ou de supostas entidades com poder cura. Porém, essa atividade foi fortemente combatida por instituições médicas que a consideravam prática ilegal da medicina, conforme consta em matéria publicada na edição de março de 1906 da mencionada revista. No mesmo periódico, edição de 1909, há outra reportagem mencionando a dificuldade de continuar com o receituário espírito na sede de Federal Espírita Brasileira, por absoluta falta de espaço para atender as pessoas que procuravam o atendimento de um terapeuta espiritual para aliviar suas dores e sofrimento. Houve ainda a prática de priorizar o receituário de remédios homeopáticos que eram distribuídos gratuitamente a quem procurasse atendimento. Em paralelo, havia também recorrentes processos de acusação de exercício ilegal de medicina.
No dia 1 de agosto de 2000, o então senador sul-mato-grossense Ramez Tebet proferiu nota de pesar no plenário do Senado Federal pelo falecimento de Maria Edwiges de Albuquerque Borges, ocorrido no dia 5 do mês anterior. A ilustre senhora deixou seu nome na história das instituições de assistência social, espíritas e de saúde mental de Campo Grande. Ficou registrado nos anais do Senado Federal que, entre as principais realizações da homenageada está seu trabalho de liderança na construção do prédio do Sanatório Campo Grande, projeto que levou quase 20 anos para ser concluído, em seguida, assumiu a administração da instituição por três décadas, além de ter participado de outras instituições de educação e saúde da cidade. Maria Edwiges participou da criação da Federação Espírita de Mato Grosso do Sul, conquistando o respeito e o carinho de toda a comunidade espírita sul-mato-grossense, assim como de toda a população local pelo seu abnegado trabalho na área da assistência social no Estado. Não foram poucas as vezes que a líder espírita se empenhou pessoalmente para  minorar o sofrimento das pessoas menos favorecidas, tanto no Sanatório Mato Grosso como na Creche Casa da Criança. Em síntese: “Deixou nosso convívio ao completar 84 anos de uma vida regida por elevada espiritualidade e por um profundo sentimento cristão de solidariedade e amor ao próximo.” (Anais do Senado Federal de 1 a 4 de Agosto de 2000)
Sanatório Mato Grosso
Um dos eventos mais divulgados entre as memórias relacionadas à fundação do Sanatório Mato Grosso diz respeito à história das duas irmãs presas na Cadeia Pública de Campo Grande, sofrendo de possíveis transtornos mentais. Embora não tenha sido possível localizar registros de jornais sobre essa lembrança, cumpre mencionar que as primeiras ações efetivas para iniciar o projeto de construção do primeiro hospital psiquiátrico de Campo Grande, ocorreram em 1947, quando ela juntamente com um grupo de colegas do serviço social realizado pelo CEDJ foram visitar, na Cadeia Pública local, duas irmãs professoras que estavam detidas pelo delegado pelo fato de terem sido encontradas perambulando pela cidade, mendigando alimento, e que possivelmente sofrendo de alterações do estado mental. Ao buscar informações junto às autoridades da cidade, o grupo de espíritas foi informado que as duas senhoras seriam enviadas para o Hospital do Juqueri de São Paulo. Ambas teriam sido vítimas de terríveis crimes ocorridos em uma fazenda saqueada por bandoleiros que teriam assassinado pessoas, sendo que elas teriam conseguido escapar, embrenhando nas matas existentes na propriedade.
Depois de vários dias, seguindo o curso de um córrego que atravessa a cidade, ambas foram socorridas, nas proximidades da Comunidade Tia Eva. Depois, voltaram a percorrer os trilheiros da região até chegaram ao centro da cidade, onde foram detidas, depois de alguns dias. Além de terem sida vítimas de violentos crimes praticados por bandoleiros, após terem sido recolhidas na Cadeia, ambas teriam sido novamente vitimizadas por estupro, pois ao serem visitadas, o grupo espírito percebeu o estado adiantado da gravidez. Diante da preocupante constatação, o grupo solicitou ao delegado a liberação das duas irmãs, a fim de elas fossem devidamente cuidadas pelos membros do CEDJ. Nesse sentido, após terem sido alojadas em uma residência, o grupo espírita resolveu iniciar a campanha para a construção do Sanatório Mato Grosso. Durante o primeiro semestre do ano seguinte, 1948, foram realizadas várias campanhas para aquisição do terreno para a construção do Sanatório.
O lançamento da pedra fundamental do Sanatório Mato Grosso ocorreu no dia 3 de outubro de 1948, data simbólica para a comunidade espírita daquele contexto na qual era usual comemorar o aniversário de Alan Kardec, autor das obras clássicas da doutrina. Conforme registra Brunet (2014), Maria Edwiges teria decido antecipar a data de realização da solenidade, devido à existência de divergências de opiniões internas ao Centro Espírita Discípulos de Jesus, onde havia também a ideia concorrente de apoiar a construção de uma escola que supostamente traria maior número de pessoas para a divulgação da doutrina. Assim, o ato foi realizado sem a mantenedora ter necessária a autorização e aprovação da planta arquitetônica pelo Departamento Nacional de Saúde Mental do Ministério da Educação e Saúde, de acordo com as normas então vigentes para a construção de um hospital psiquiátrico.
No dia seguinte ao lançamento da pedra fundamental o projeto foi noticiado em página inteira do Jornal do Commercio, periódico que circulou em Campo Grande por mais de 40 anos a partir do início dos anos 1920. Foi noticiado que à frente da comissão pró construção do Sanatório estava o major Gumercindo Bruno Borges, esposo de Maria Edwiges e oficial do Exército Brasileiro, contando com a parceria de Hermínio Pereira Mendes, Oswaldo Augusto Pereira e Manuel Garcia de Souza.
Para entender o contexto de criação do Sanatório Mato Grosso, em Campo Grande, cuja pedra fundamental foi lançada no ano de 1948, faz-se necessário retornar ao início daquele século para se ter uma ideia a respeito dos primeiros sanatórios espíritas do Brasil. É a partir dessas instituições que nasceram as escolhas iniciais, os métodos e as referências para construir a primeira casa especializada em tratamento de doenças mentais em Campo Grande. Com esse propósito, ao retornar ao quadro histórico da criação dos primeiras casas espíritas identificadas como Sanatório, é conveniente destacar a trajetória do Sanatório Espírita de Gopoúva, inaugurado em 8 de dezembro de 1920, próximo à Estação Ferroviária da linha Cantareira, localizada no atual distrito de Guarulhos, São Paulo. Evento que foi registrado em diversos órgãos da imprensa nacional, tal como a reportagem publicada na revista A Luz, da Federação Espírita Catarinense, de dezembro do mesmo ano.
O referido Sanatório Espírita estava vinculado à Associação Espírita São Pedro e São Paulo, integrado à Liga Espírita de São Paulo. Naquele momento, ainda não estava criada a Federação Espírita do Estado de São Paulo, cuja primeira reunião foi realizada no dia 17 de maio de 1936, para discutir a conveniência da unificação todos as casas criadas até então para o estudo e práticas doutrinárias da Ciência Espírita. Na direção desse grande Sanatório Espírita estavam os médicos Augusto Militão Pacheco e David Cavalheiro, sendo presidente da Associação Espírita era exercia pelo empresário Luiz Manuel Pinto de Queiroz. Conforme anúncio publicado no jornal República, Florianópolis, 27 de Maio de 1921, página 3. Ficou na memória paulista a excelência das instalações daquela casa de saúde, com capacidade para receber 200 doentes, com alas separadas para homens e mulheres, situado em um “belo planalto nos arredores da cidade”. Houve uma grande divulgação por meio de anúncios e comerciais, divulgando que o prédio estava construído em uma fazenda arborizada com 500 mil metros quadrados de superfície, com magnífico clima, excelentes fontes de água para contribuir no tratamento e reocupação de pessoas acometidas com doenças nervosas, inclusive nos casos mais graves de obsessão e neurastenia. Após alguns anos de funcionamento, o Sanatório Espírita do Gopoúva foi adquirido pelo Governo Vargas para instalar um hospital para tratamento da hanseníase, denominado Colônia Padre Bento, conforme Savassi (2010).
Com o propósito de conseguir os recursos para iniciar a construção do Sanatório, os membros da comunidade espírita iniciaram uma série de promoções, em 1949, incluindo projeção de filmes nos dois melhores cinemas da cidade, apresentações artísticas, desfile de moda, sorteio de um automóvel novo, coordenadas pela Maria Edwiges de Albuquerque Borges. Essas promoções envolviam projeções de filmes, ofertas recolhidas através de livro-ouro, desfiles de modas, quermesses, leitões e apresentações de artistas diversos, com ampla participação da sociedade campo-grandense de diferentes extratos sociais. Entre todos esses eventos, talvez o mais arrojado, foi o Festival de Concertos, uma apresentação de quatro conhecidas artistas da época: Maria Izabel Fernandes, pianista; Erika Millée, bailarina alemã radicada no Paraguai; Laura Della Mônica, declamadora e Therezinha Rondon, violinista. Na posição de apresentadora do espetáculo, estava a líder espírita a própria Maria Edwiges de Albuquerque Borges.      Dezenas de promoções foram realizadas sob a coordenação de Maria Edwiges para angariar os recursos necessários para a compra de um amplo terreno para a construção do Sanatório. O local escolhido no início da Vila Planalto, onde era possível adquirir uma área com a metragem suficiente para erguer as diferentes alas previstas na legislação hospitalar da época. Os quatro primeiros lotes foram doados por familiares de Maria Edwiges e, posteriormente, com as sucessivos promoções foram sendo adquiridos outros lotes, perfazendo uma área de 15 mil metros quadrados. Ficou na memória local as concorridas sessões de cinema, com apresentação de filmes de grande sucesso de bilheteria, projetados no Cine Santa Helena e no Cinema Alhambra, em alguns finais de semana, havia sessões corridas a partir das 14:00 até as 22:00h. Mesmo com o sucesso dessas promoções, o orçamento para a construção exigia investimento do setor público, cujo obtenção requeria apoio político ao projeto. Razão pela qual, a construção levaria longos 18 anos para ser finalizada.
No dia 5 de dezembro de 1949, Gumercindo Bruno Borges, presidente da CEDJ encaminhou ofício ao diretor do Departamento Nacional de Saúde Mental, pleiteando a autorização necessária para iniciar as obras do Sanatório Mato Grosso, incluindo a análise técnica do projeto de engenharia, para verificar se tudo estada de acordo com as normas vigentes. Nesse documento, ficou explanado com toda clareza que a cidade de Campo Grande era um polo de desenvolvimento regional, para onde convergia grande número de pessoas vindas de várias partes do país e do estrangeiro e que uma das condições mais precárias era o tratamento para transtornos mentais. Dentre as deficiências sociais da cidade, estava a falta de condições para o melhor acolhimento de pessoas que vinham em busca de melhores condições de vida ou de tratamento de saúde. O presidente do Centro Espírita informou que não havia na cidade nenhum hospital para tratamento psiquiátrico e que muitas vezes esses doentes não eram “lançados nos cubículos das cadeias públicas”, onde terminavam os seus dias. No mesmo documento consta ainda que as pessoas atacadas por transtornos mentais na região sulina do Mato Grosso, somente obteriam tratamento se tivessem condições de se serem levadas para cidades distantes. Diante dessa realidade social, o CEDJ pretendia construir um hospital, em terreno de sua propriedade com área de quinze mil metros quadrados, não muito distante do centro da cidade, para o tratamento de doenças mentais, em obediência à legislação do país. Diante do exposto, pedia a atenção do referido departamento para análise do pleito, assim como das plantas anexa ao ofício.
Após o concorrido lançamento do Festival de Concerto em Campo Grande, as artistas fizeram uma turnê por uma dezena de outras cidades (Corumbá, Cuiabá, Bauru, Campinas, São Carlos, Araraquara, Ribeirão Preto, Niterói, São Paulo e Rio de Janeiro). O sucesso desse festival contava com a ampla colaboração não somente da comunidade espírita como também de muitas pessoas generosas que reconheciam o mérito dos recursos arrecadados. Muito se conseguia em termos das ofertas de espaços gratuitos para a apresentação das artistas, bem como para a venda antecipada dos ingressos, custo das viagens, hotéis e alimentação. Mesmo assim, visto que os recursos para a construção do prédio eram vultuosos, foi preciso persistir 18 anos de trabalhos para a sua finalização.
No início de 1950, Maria Edwiges estava no Rio de Janeiro, Capital Federal, coordenando mais uma apresentação do Festival de Concertos, com o propósito de angariar fundos para a construção do Sanatório Mato Grosso. Nesse sentido, noticiou o jornal carioca A Noite, em 14 de janeiro de 1950. Por ser um período de férias e de alto fluxo turístico na capital, todos os teatros públicos e particulares estavam com as suas programações fechadas, não havia mais espaço disponível para a apresentação dos artistas do Mato Grosso. Para resolver essa dificuldade, entra em cena o jornalista José Jayme Ferreira de Vasconcellos, proprietário do Jornal do Commercio de Campo Grande que telefonou para o seu colega jornalista Herbert Moses, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), solicitando sua gentileza para conseguir um espaço para o festival organizado por Maria Edwiges. Assim foi disponibilizado, sem custo financeiro, o auditório da ABI, espaço que, na década seguinte, seria utilizado como lugar de resistência à Ditadura Militar.
No dia 14 de janeiro de 1950, o jornal A Noite, do Rio Janeiro, noticiou que a bailarina alemã Erika Millée, radicada no Paraguai, e outras artistas, iriam participar de um monumental festival de concertos, organizado por iniciativa de Maria Edwiges de Albuquerque Borges, cuja arrecadação da bilheteria seria destinada à construção do Sanatório Pró-Doentes Mentais de Mato Grosso. No mesmo contexto, em cerimônia realizada no salão de despachos do Palácio do Catete, o jornalista José Jayme Ferreira de Vasconcellos, principal empresário do jornalismo campo-grandense, por mais de quatro décadas, recebeu o Diploma de Comendador da Ordem Nacional do Mérito, conferido por decreto assinado pelo Presidente Getúlio Vargas. Era tempos de glória do Partido Trabalhista Brasileiro, do qual faziam parte os políticos atuantes em Campo grande, como Ari Coelho e Wilson Fadul.
Logo após o major Gumercindo Borges ter assumido a presidência do CEDJ, em 1951, ele foi orientado sobre a conveniência do daquela instituição ser conhecida como de utilidade pública federal, o que facilitaria o recebimento de doações para a construção do sanatório. Nesse sentido, para ampliar as possibilidades de recebimento de doações de empresas ou entidades públicas para a construção do Sanatório Mato Grosso, seria conveniente se o projeto fosse reconhecido como de utilidade pública federal. Com esse propósito, no final de 1952, durante uma viagem de visita familiar ao Rio de Janeiro, Maria Edwiges, através de sua ampla rede de contatos políticos, conseguiu agendar audiência com o Presidente Getúlio Vargas. Munida de uma pasta com os documentos do Sanatório, foi até o Palácio do Catete, onde foi recebida pelo Presidente que atentamente ouviu sua solicitação. Após analisar detalhes do projeto, o Presidente lhe parabenizou pela importante obra social que espíritas realizavam em diversas partes do Brasil. Disse então que assinaria um decreto que seria publicado no início do ano seguinte. De fato, por um decreto de 23 de fevereiro de 1953, o Centro Espírita Discípulos de Jesus foi considerado uma instituição de Utilidade Pública Federal.
Em edição de outubro de 1962, o jornal mensal Brasil-Oeste, impresso em São Paulo, publicou ampla reportagem ilustrada sobre a continuidade das obras do prédio do Sanatório Mato Grosso, mostrando o progresso geral da cidade de Campo Grande, reconhecida como principal polo econômico e político da antiga região sulina do Mato Grosso. A população regional ainda ressentia a negativa do então ex-Presidente da República Jânio Quadros  em acatar o histórico pleito de criação do Estado de Mato Grosso do Sul. Diante da instabilidade política dos sete meses que presidiu o Brasil, sua opção foi acatar os interesses políticos centralizados em Cuiabá. Foi nesse contexto político de expansão das condições econômicas e políticas de Campo Grande, que a finalização das obras era uma necessidade social urgente, pois como registrou o referido jornal não havia ainda na região nenhuma instituição para acolher pessoas com transtorno mental. Ficou registrado que ainda prevalecia na cidade o costume de recolher à cadeia pública os doentes mentais que estivessem pelas ruas da cidade.
Estava nascendo uma instituição benemérita, idealizada desde o ano de 1939, pelas lideranças do Centro Espírita Discípulo de Jesus, de Campo Grande. Embora o Presidente Getúlio Vargas tivesse reconhecido o projeto como uma futura instituição de utilidade pública, por um decreto-lei de 1944, após os longos anos do Estado Novo, não estava mais recebendo verbas dos poderes públicos. Nesse registro jornalístico, foi esclarecido que o futuro Sanatório estava sendo construído como um departamento de assistência social do referido Centro Espírita, que também coordenava serviço de atendimento de 50 famílias pobres, com a distribuição regular de cestas de alimentos, assim como o fornecimento de alguns medicamentos mais simples.    A mesma entidade religiosa mantinha em funcionamento a Escola Bezerra de Menezes, oferecendo instrução escolar popular em três turnos, incluindo um curso de alfabetização de adultos. Ficou registrado que o então ex-senador Vespasiano Barbosa Martins havia se empenhado em conseguir verbas federais para suplementar o custeio necessário ao funcionamento da instituição. Porém, ficou registrado que “Nenhum outro parlamentar havia se interessado em lembrar do Sanatório Mato Grosso, na hora de planejar a distribuição de verbas assistenciais”.    Por esse motivo, a principal fonte de recursos está sendo as contribuições da comunidade espírita, assim como de várias outros benfeitores da sociedade campo-grandense. Mesmo antes de sua inauguração, foi anunciado que a diretora do Sanatório Mato Grosso era exercida pela senhora Maria Edwiges Borges, sendo vice-presidente, Jerônimo Gonçalves da Fonseca; primeiro secretário, Pedro Pinto da Silva; segundo-secretário, José Mário Trouy; primeiro tesoureiro, José de Almeida Faro; segundo-tesoureiro, Teodomiro Leito de Melo. (Jornal Brasil Oeste, São Paulo, outubro de 1962, número 74)
Logo após assumir o Ministério da Saúde, em junho de 1963, o médico Wilson Fadul visitou Campo Grande, convocando para acompanhá-lo, Roland Leão Castelo, diretor do Departamento Nacional de Saúde Mental. A construção do prédio para o Sanatório Mato Grosso estava bem adiantada, mas ainda faltavam verbas para o acabamento, comprar e instalar equipamentos. Roland Castelo fez um levantamento detalhado que estava faltando para finalizar o hospital. Faltavam as poltronas para o auditório, equipamento fundamental para as reuniões com os internos, familiares e corpo técnico do hospital psiquiátrico. Maria Edwiges já havia providenciado a doação das poltronas de madeira do antigo Cine Rialto, cujo proprietário estava trocando as antigas poltronas por novas com almofadas. Ao final da visita, o Ministro Fadul acertou a transferência de 5 milhões de cruzeiros para a diretoria do Sanatório adquirir equipamentos que faltavam. Prometeu e enviou 100 leitos hospitalares, 100 cadeiras, 20 mesinhas e um gabinete odontológico. Por último, afirmou que seria necessário capacitar uma equipe de enfermagem para que o hospital pudesse ser inaugurado. Seria necessário fazer um curso de enfermagem de um ano e ofereceu como local de treinamento o Hospital Psiquiátrico Pedro II do Rio de Janeiro, no bairro do Engenho de Dentro, onde receberiam formação teórica e prática de enfermagem. Solicitou o envio de uma lista de moças e rapazes disponíveis para fazer tal formação. Pouco dias depois, Maria Edwiges enviou a lista dos jovens que fariam o curso de enfermagem no referido hospital. Dessa equipe de enfermagem faziam parte nove moças e quatro rapazes, entre estes o jovem Alex Leite de Melo, autor do livro Melo (2019), em homenagem à memória de Maria Edwiges.
No início do ano seguinte, em janeiro de 1964, o diretor do Departamento Nacional de Saúde Mental enviou as passagens áreas para os jovens campo-grandenses viajarem para o Rio de Janeiro, onde iniciaram a formação em enfermagem no Hospital Psiquiátrico Pedro II. Ficaram hospedados na residência do diretor clínico, na área interna do referido Hospital. Dois meses após o início do curso de enfermagem, os jovens começaram a ouvir os maus rumores de um possível Golpe Militar, como de fato aconteceu em 31 de março de 1964. Porém, na véspera, tudo foi preparado para o retorno rápido dos 13 jovens para Campo Grande, porque o futuro seria plenamente incerto. Maria Edwiges foi ao Rio de Janeiro para acompanhar de perto a superação daquele momento. Houve a concessão de uma quantia em espécie para custear o retorno dos jovens à Campo Grande, que ficaram conhecidos como “afilhados do Ministro”. Poucos dias despois, Maria Edwiges recebeu um comunicado de Wilson Fadul de que os jovens poderiam complementar a capacitação em enfermagem no Sanatório Américo Bairral, em Itapira (SP). Assim, em meados de abril de 1964, primeiros momentos da Ditadura Militar, os jovens campo-grandenses seguiram viagem para a referida cidade. Conforme anotações históricas de Bianchi (1984) o Sanatório Américo Bairral, hoje Instituto Bairral de Psiquiatria, teve origem nos anos 1920, resultado da comunidade espírita de Itapira, sob a liderança do senhor Firmino Américo Bairral.
Em diferentes documentos analisados no contexto desta pesquisa, Maria Edwiges Borges Albuquerque declara seu reconhecimento público pelos relevantes serviços prestados pelo médico Wilson, cuja exitosa carreira política inicia-se em 1950, quando foi eleito vereador, vindo ocupar o cargo de prefeito de Campo Grande e, no início da década seguinte, após ter sido eleito deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro, ocupou o cargo de Ministro da Saúde do Governo João Goulart. Quando foi vereador em Campo Grande, início dos anos 1950, Wilson Fadul prestou relevantes serviços à construção do Sanatório Mato Grosso. Momento de grande turbulência política decorrente do expressivo desenvolvimento econômico de Campo Grande, que culminou no lamentável episódio do assassinato do então prefeito Ari Coelho, dentro de um órgão da administração pública em Cuiabá. Depois exerceu o cargo de prefeito de Campo Grande, Wilson Fadul foi eleito deputado federal, o mais votado do Mato Grosso, e depois ainda foi Ministro da Saúde, no Governo João Goulart, até às vésperas do início da Ditadura Militar. Quando foi prefeito, bem como no exercício do mandato de deputado federal, Fadul sempre estava à disposição para contribuir com os pleitos filantrópicos liderados pelos membros do Centro Espírita Discípulo de Jesus. Entretanto, diante da envergadura do projeto a sua principal contribuição ocorreu com o apoio dado pelo Departamento de Saúde Mental do Ministério da Saúde, na fase que precedeu ao Golpe Militar e Civil deflagrado em 31 de março de 1964.
O médico psiquiatra Luís Salvador de Miranda Sá Junior foi contratado para ser o primeiro diretor clínico do Sanatório Mato grosso. Natural de Juiz de Fora, Minas Gerais, Luis Salvador nasceu a 19 de maio de 1938, morou alguns anos em Garanhuns (PE), onde iniciou o curso secundário e concluiu esse nível de estudos em Recife, visando preparar-se para o vestibular de Medicina. Em 1959, ingressou na Faculdade de Ciências Médica de Recife, especializando-se em Psiquiatria, em 1964. No ano seguinte se transfere para Campo Grande, onde visualizou melhor oportunidades para também ingressar no professor no curso de Medicina, hoje integrado à Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Na mesma época, também integrou o quadro médico da Santa Casa. No mesmo ano em que o Sanatório Mato Grosso foi inaugurado, Luís Salvador participou da fundação da Associação Brasileira de Psiquiatria, instituição da qual viria ser presidente nos anos 1980. Anotações sobre a trajetória do psiquiatra Luís Salvador são apresentadas por Piccinini (2013), mostrando o reconhecimento de sua produção acadêmica e de sua participação ativa em diferentes instituições de saúde mental no Brasil. Além de sua participação no campo profissional e acadêmico, Luis Salvador, foi membro do Conselho Estadual de Educação do Mato Grosso do Sul, em 1981. No exercício dessa função, foi um dos defensores da criação da Diretoria de Educação Especial, órgão encarregado das políticas para a inclusão de pessoas com deficiências. Ainda no setor de educação, o engajado psiquiatra pertenceu ao corpo docente do curso de graduação em Psicologia da Faculdade Dom Aquino de Filosofia, Ciência e Letras, hoje Universidade Católica Dom Bosco.   Conforme noticiou o Diário de Notícia, do Rio de Janeiro, em 18 de agosto de 1966, estava sendo iniciado naquele momento o Congresso Internacional de Psiquiatria do Rio de Janeiro, com a discussão de temas considerados os mais relevantes no campo da psiquiatria. O médio José Caruso Madalena diria proferir conferência sobre o avanço da psicofarmacologia; o médico Ulisses Viana Filho iria professor conferência sobre o Sono e Sonhos do ponto de vista neurofisiológico, enquanto o médico Wilson Lira Chebabi iria dissertar sobre o mesmo tema do Sono e Sonha, porém, do vista psicológico. Para o mês de setembro do mesmo ano, estavam previstas outras conferências sobre o conceito de Comunidades Terapêuticas e meios para a instalação desse tipo de atendimento psiquiátrico, tema de interesse do médico Roberto Correia
É necessário ressaltar que época em que o atual Hospital Nosso Lar foi inaugurado, já havia uma diferenciação no uso dos termos sanatório e hospital, sendo o primeiro termo mais indicado para o caso em que não houvesse nenhum médico nomeado oficialmente ou contratado para conduzir profissionalmente o atendimento dos doentes. Nesse sentido, cumpre observar que desde o início do funcionamento do Sanatório Mato Grosso, o médico psiquiatra Luis Salvador de Miranda Sá Júnior já estava contratado para atender os internos daquela instituição. Para registrar a inauguração do Sanatório foi impresso um cartão ilustrado com os seguintes dizeres: “Lembrança da inauguração do Sanatório Mato Grosso. Senhor! Quão admirável é o Teu nome em toda a terra – Salmo 8-10”, destacando a frase “Doenças Nervosas e Mentais – Repouso, com a homenagem de redigida nos seguintes termos: “Homenagem de gratidão aos Drs. Wilson Fadul, digníssimo ex-Ministro da Saúde e Roland Leão Castelo, ex-Diretor Geral do Serviço Nacional de Doenças Mentais, beneméritos desta instituição.” Cumpre observar que nessa época havia extrema falta de profissionais médicos psiquiatras, ainda mais dispostos a atuarem em cidades distantes dos grandes centros urbanos do país. Essa carência de psiquiatras favorecia a multiplicação de atendimentos diversos para pessoas portadoras de sofrimento psíquico, incluindo religiosos, espiritualistas, curandeiros, místicos e até mesmo falsos alienistas.
No dia 4 de abril de 1976, o jornal O Estado de Mato Grosso, de Cuiabá, noticiou que havia cerca de 40 doentes mentais vagando pelas ruas de Campo Grande, hoje capital do Mato Grosso do Sul. Naquele momento, no contexto político regional, intensificava-se as articulações junto ao Governo Militar para oficializar a divisão geográfica no antigo Mato Grosso Uno. O General Ernesto Geisel havia servido em unidades do Exército Brasileiro, em Campo Grande. Conhecia de perto a longa história do pleito separatista e das potencialidades da cidade e região para oficializar a criação de uma nova unidade federativa. ...O Sanatório Mato Grosso estava funcionando há uma década, mas o número de leitos disponíveis não atendia à elevada demanda por serviços públicos de saúde mental, dando origem ao registro jornalístico acima mencionado. Havia então uma estimativa, informada pelas autoridades sanitárias locais, de que por volta quatro mil habitantes de Campo Grande necessitavam de atendimento de serviços mentais. Essa mesma informação foi publicada no jornal Diário da Serra, órgão da imprensa campo-grandense vinculado aos Diários Associados, em decorrência de uma reunião realizada na Associação Médica local, com a participação de diversas autoridades do setor de saúde.   Na realidade essa expressiva demanda incluía pessoas que vinham de vários outros municípios da região pelo fato de ser Campo Grande o principal polo de assistência médica de todo o sul do Mato Grosso. Por outro lado, esse expressivo número de pessoas portadoras de transtorno psicológico estava associado a movimento migratório para a região, oriundo de diferentes outras região de país e do exterior. A reunião realizada na Associação Médica deu origem a um documento indicando a necessidade urgente dos esforços por parte do poder público estadual e federal, visando adequar as políticas de saúde mental à realidade da região.    Os médicos indicaram que o atendimento era praticamente inexistente na parte referente à assistência do menor, aos pacientes geriátricos, às pessoas portadoras de necessidades especais e às pessoas que estavam vivendo marginalizadas nos rincões mais pobres do município. Havia então a emergência da implantação de unidades de emergência psiquiátrica em Campo Grande, indicando que essas unidades ficassem ligadas aos hospitais gerais, que tinham o compromisso de não sobreporem ao tratamento psiquiátrico nenhuma precedência religiosa.    O relatório elaborado na referida reunião indicou que fosse criado um serviço de saúde mental específico para atender a região da Grande Dourados, com equipe multiprofissional. Embora estivesse prestando relevantes serviços, o Sanatório Mato Grosso estava com elevado número de pacientes crônicos internos, não sendo possível ampliar o atendimento. Os participantes da referida reunião opinaram ser conveniente ampliar a participação da Universidade no atendimento aos doentes mentais, assim como outros setores da saúde pública da cidade e região.
Em 17 de março de 1978, O Estado do Mato Grosso, diário impresso em Cuiabá, noticiou que diante das necessidades de atendimento aos numerosos doentes mentais existente no Mato Grosso,  o governo estadual havia deliberado a realização de dois cursos de treinamento médico para atendimento de casos psiquiátricos. Um desses cursos foi realizado no Hospital Adauto Botelho de Cuiabá, visando atender médicos que trabalhassem na região norte do Estado e o outro curso foi realizado nos dias 31 de março, 1º e 2 de abril de 1978, em Campo Grande, no auditório do Sanatório Mato Grosso, para tender médicos atuantes na região onde estava prevista a instauração do Mato Grosso do Sul. Para participarem desses cursos foram convocados médicos das unidades sanitárias estaduais conforme explicou o médico Vicente Herculano da Silva, então diretor do Serviço de Saúde Mental da Secretaria de Saúde do Estado do Mato Grosso. A finalidade desse treinamento era suprir a falta de profissionais aptos a atenderem numerosos casos que pessoa portadoras de transtornos mentais e orientar hábitos e estratégias para  prevenção de doenças mentais. Ainda no ano de 1978 foi realizado outro evento em Campo Grande, o Encontro Regional de Saúde Menta.  Após a criação do Estado de Mato Grosso do Sul, em decorrência da Lei Complementar no 31, de 11 de outubro de 1977, medidas foram tomadas no âmbito municipal, estadual e federal para a instauração marcada para o dia 1º de janeiro de 1979. Nesse contexto de preparação para o funcionamento da nova unidade federativa foi realizado o Encontro Regional de Saúde Mental, em Campo Grande, no dia 14 de outubro de 1978. Estiveram presentes o Secretário de Saúde do Estado, Antônio Alves Duarte, o médico Vicente Herculano, coordenador do Serviço de Saúde Mental do Estado, assim como médicos generalistas, enfermeiros e técnicos servidores do setor de saúde mental da região de Campo Grande. Esse evento ocorreu nas dependências do Sanatório Mato Grosso, com participação de psiquiatras, assistentes sociais e enfermeiras da instituição. O principal objetivo desse encontro foi no sentido de orientar médicos generalistas e outros profissionais para um atendimento mais funcional das pessoas portadoras de transtorno mental, diante do reduzido número de médicos especializados em psiquiatria. Uma das decisões práticas desse encontro foi a seleção de assistentes sociais, enfermeiras, atendentes para receber um curso de capacitação, visando ampliar as condições de atendimento à saúde mental, atividade prevista no Projeto Específico de Saúde Mental. Assim, ao nasceu o Mato Grosso Sul, tem-se esse quadro de necessidade de expansão dos serviços de saúde mental não somente para Campo Grande, mas também para toda a região. São informações publicadas em 8 de outubro de 1978 do jornal O Estado de Mato Grosso, de Cuiabá.

Referências
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SELEM, Terezinha de Alencar. 100 mulheres pioneiras em 100 anos de Campo Grande. Campo Grande, Ed. UFMS, 1999.  
Luiz Carlos Pais e Simone Silveira Cougo
Enviado por Luiz Carlos Pais em 08/01/2026
Alterado em 21/06/2026
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