Luiz Carlos Pais
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. (Fernando Pessoa)
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links
Textos
Sincronicidade e as conexões não causais
O conceito sincronicidade foi proposto por Carl Gustav Jung para designar a ocorrência de coincidências significativas para a vida de um indivíduo e que não podem ser explicadas com base no princípio da causalidade. Por esse motivo, sincronicidade é um princípio de conexão não causal. Trata-se de um tema de fundamental importância para entender a evolução das bases conceituais e metodológicas do pensamento científico na psicologia analítica.

Esse conceito começou a ser desenvolvido no final da década de 1920, quando Jung mencionou o termo em um seminário realizado em 1928. Alguns anos depois houve uma publicação na qual a ideia central foi formalizada com mais detalhes e somente em 1952 é que Jung publicou o trabalho mais extenso sobre o tema. Essa última publicação foi em um volume que também inseriu um trabalho do físico Wolfgang Pauli, um dos pioneiros da física quântica. Portanto, é possível perceber que a complexidade do conceito exigiu longos anos de trabalhos para a sua elucidação na forma mais ampla possível naquele momento, quando Jung iniciava a última década de sua vida.

As coincidências significativas previstas na ocorrência de um evento de sincronicidade não são simples obra do acaso, mas uma conexão que não pode ser explicada para lógica linear usual da relação de causa e efeito. Jung e Pauli entendiam que esse tipo de fenômenos está associado a uma ordem que transcende a maneira tradicional de justificar o conhecimento científico. Em outras palavras, admitir a validade do princípio de sincronicidade significa romper com a lógica positivista de que todo efeito tem uma causa. O diferencial do novo princípio proposto por Jung consiste em associar a ocorrência de um evento significativo ao inconsciente coletivo e aos arquétipos.

O exemplo clássico de sincronicidade descrito por Jung diz respeito ao sonho que uma de suas pacientes teve com um besouro dourado. Mas no exato momento em que ela estava relatando o sonho, um besouro real entrou pela janela do consultório. Acontece que na mitologia egípcia o besouro dourado é um símbolo de renascimento. Esse evento foi uma coincidência significativa para aquela pessoa que estava vivendo um momento decisivo em sua vida, na iminência de iniciar um novo momento de transformações. Com base na teoria da sincronicidade essa coincidência significativa na história de vida pessoal está associada ao arquétipo do renascimento.

Todas as pessoas vivenciam a experiência da sincronicidade. A comprovação empírica dessa afirmação pode ser obtida prestando atenção em coincidências que tiveram grande significado para transformar a vida de uma pessoa. Ainda sob a influência do arquétipo de renascimento em minha própria vida experienciei uma dessas coincidências transformadoras. Em uma noite de domingo encontrei um amigo (encontro não casual) com o qual eu não me encontrava há certo tempo. Ele me disse que no dia seguinte iria viajar para Belém do Pará, distante três mil quilômetros da nossa cidade, onde iria fazer a inscrição para o vestibular. Ele me convidou para se juntar ao grupo de cinco estudantes que iriam tentar o vestibular naquela capital. Foi assim que aceitei esse convite e um mês depois fui aprovado no vestibular. Foi um renascimento para minha vida, após concluir a graduação, iniciei minha carreira acadêmica.

Outros exemplos de sincronicidade podem ocorrer em coincidência significativa entre sonho e realidade, sinal de que pode haver ali a influência de um arquétipo transformador da história de vida pessoal, envolvendo conquistas, transformações essenciais em relacionamentos, trabalho, família, religião, entre outros domínios da vida. Jung dizia que a sincronicidade funciona como um canal de comunicação entre conteúdos conscientes e inconscientes, onde podem conflitar planos pessoais, constelação de complexos e influência de arquétipos como padrões universais de temas importantes nas mais diversas sociedades.



Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 16/01/2026
Alterado em 16/01/2026
Comentários