Arquétipo do Trickster
Este ensaio convida o leitor a visitar o fascinante mundo dos arquétipos, que são padrões universais de ideias e formas que inspiram as pessoas a vivenciarem as mais diversas situações da vida. Ressignificado a partir de antigas fontes filosóficas e teológicas, o conceito foi aplicado na composição da psicologia analítica pelo psiquiatra e analista suíço Carl Gustav Jung. Esses padrões são inatos e trazem, com algumas variações, conteúdos integrados do inconsciente coletivo e funcionam para estabelecer relações como os complexos constelados do inconsciente pessoal. Existe uma diversidade de arquétipos que representam as mais diversas experiências compartilhadas por todas as pessoas. Entre os arquétipos citados com maior frequência estão aqueles relacionados à jornada do heroi, à maternidade, ao renascimento, ao espírito e à alegria de viver. Mas dentro dessa diversidade destacamos o arquétipo do Trickster, que será focalizado mais especificamente nos próximos parágrafos.
Não podemos deixar que a própria palavra Trickster, que não está presente na linguagem do cotidiano, possa funcionar como obstáculo linguístico. Pode até parecer estranha, mas assume um lugar especial na psicologia analítica por incorporar o espírito de alegria e diversão saudável. Ao final da leitura, é bem provável que o leitor reencontre imagens em sua própria experiência, que têm o significado essencial do conceito que descrito por Jung, na sua obra intitulada Quatro Arquétipos. Trickster é uma palavra da mitologia indiana, associada à situações em que predomina a intenção de diversão alegre e festiva, procurando extrapolar a seriedade e ordem que predominam na vida diária. A imagem mítica do Trickster indiano tem uma estreita analogia com o antigo carnaval praticado nos tempos da Igreja Medieval, onde havia uma divertida inversão na hierarquia, no mundo da fantasia, para compensar a rígida ordem que existente em quase todas as instituições. De repente, por apenas por alguns dias, podemos cair na folia, homens se vestem de mulher, sempre havendo um movimento contrário da mulher também se divertir de alguma forma saudável.
Um dos caminhos para estudar o arquétipo do Trickster consiste em rastrear os adjetivos usados por Jung para qualificar essa imagem cultural presente nas mais diversas sociedades. Mas é preciso ter cuidado para não se afastar tanto do conceito que é hoje valorizado pelos psicólogos junguianos. Por exemplo, em dado momento, um editor inglês publicou uma tradução do termo trickster como maroto, o que chegou a irritar Jung porque ele entendeu que esse último termo tem conotação de esperteza, malandragem e malícia. Assim, é preferível continuar usando o termo original e dar ele o significado de divertido, alegre, mas sem agressão, violência ou abuso qualquer natureza.
Na tradição cultural e religiosa de Folia de Reis, por exemplo, preservada em diferentes regiões do Brasil para celebrar a visita dos Três Reis Magos ao Menino Jesus, tem uma imagem arquetípica do Trickster, representada pelo personagem do palhaço que acompanha a peregrinação do grupo. Os devotos dos Santos Reis recebem em suas casas o grupo de foliões, onde há cantorias, rezas e um lanche, sem bebida alcoólica dizem alguns. A bandeira com as imagens dos Santos Reis é reverenciada e o palhaço tem a função de proteger, divertir, fazer trapaças para assustar as pessoas e animar os foliões. O sagrado e o profano estão profundamente articulados ou integrados na festa.
O Trickster tem atitudes ambivalentes de transitar pelo profano e sagrado, pela sabedoria e falta de luz, pela alegria para recompor a sobriedade exigida pelo superego fiscalizador. É uma personagem paradoxal encontrada em religiões, festas e manifestações da cultural local e universal. Para conceituar o Trickster, Jung buscou ainda fontes alquímicas, destacando as características do Mercúrio cujo sentido transcenderia as suas próprias propriedades físicas. É um símbolo de transformação, tal como o espírito trickster pretende provocar por onde passa como sua força vital. Nas palavras de Jung: “Os traços tricksterianos do Mercúrio têm alguma relação com certas figuras folclóricas (...) conhecidas nos contos de fada: Dunga, João Bobo e o Palhaço que são heróis negativos, conseguindo pela estupidez aquilo que outros não conseguem com a maior habilidade.”
É importante ressaltar que os traços mitológicos dos arquétipos percorrem a vivência espiritual nas mais diversas religiões e ritos que permitem o exercício de religar com o sagrado. Durante anos, Jung pesquisou diversas fontes de filosofia antiga, medicina e teologia, saberes tradicionais e ensinamentos do oriente e do ocidente em busca de imagens arquetípicas que pudessem elucidar o mergulho no inconsciente pessoal e coletivo. Essa busca incluiu o trabalho de estudar as imagens diabólicas do Antigo Testamento, o que o levou a encontrar exemplos de manifestações do espírito brincalhão, lúdico e divertido para rogar a glória de viver outro renascimento e assim contrabalançar a seriedade, ordem, rigor e hierarquia que prevalece em outras polaridades da psique humana.
A obra de Jung nos leva a pensar que o Trickster mostra uma etapa inicial do despertar da consciência, revira velhas certezas em busca da alegria e animus para viver mais um renascimento sob a proteção da anima. Esse despertar é algo profundamente sério, mas zomba das pequenas luzes da consciência do ego. Quanto mais inflado estiver o ego, senhor de si, mais o trickster consegue mexer com a nossa estabilidade que é sempre temporária. É devido a essas qualidades que os arquétipos são formas inspiradoras universais, das quais conseguimos capturar apenas uma imagem mental que na melhor das hipóteses corresponde à representação coletiva da nossa comunidade. Sem a dimensão lúdica do Trickster é muito difícil favorecer a maturidade emocional, a integração das forças opostas que prevalecem na totalidade da psique. Esse arquétipo brincalhão pode estar nas lendas, mitos, figura folclóricas, sonhos, etc.
Nos quatro cantos da cultura brasileira podemos encontrar a lenda do Saci-Pererê, menino travesso de uma perna só que incorpora os saberes africanos, vive nos labirintos das matas. Sempre está aprontando alguma travessura e escondendo objetos dos outros, mas revela sua dimensão ecológica de protetor dos animais e a natureza. Uma personagem criada por Monteiro Lobato que muito bem soube sincretizar lendas indígenas, africanas e mitos ancestrais. Ao aceitar sua própria ingenuidade, o trickster busca a cura interior, fortalece a alma, sem perder o contato com o espírito do tempo e do ambiente. Afinal para viver o processo de individuação é preciso tirar a nossa máscara social.
O interior do ser humano revela sinais que levam ao encontro com essa imagem emblemática na cultura popular e dos redutos sóbrios dos cultos religiosos. Isso nos ensina a necessidade de fazer perguntas incômodas e rir do si-mesmo para integrar nossos conflitos internos. No teatro de rua, por exemplo, o artista brinca com o público com seus improvisos, mímicas e imitações, apenas com alegria e sem pretender ferir o outro. É manifestação do Trickster que não quer ofender a alma, pretende apenas festejar a liberdade. Não quer o caos e sim o início de renascimento para ampliar a consciência do ego. Finalmente, como acontece com todos os outros arquétipos, o Trickster mostra diferentes polaridades, brincando com as relações entre consciência e inconscientes pessoal e coletivo, persona e sombra, sagrado e profano. Pelo viés da ludicidade, busca encontrar equilíbrio entre complexos constelados e o que existe de luz nas imagens arquetípicas que são apenas representações culturais coletivas no contexto considerado.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 18/01/2026
Alterado em 18/01/2026