Tonalidade afetiva
Estatísticas recentes publicadas pelas principais agências mundiais de saúde indicam um aumento expressivo do número de pessoas afetadas por ansiedade, angústia, depressão, impulsividade ou compulsão. Entendo que não se trata de acreditar numa visão apocalíptica como se essa realidade fosse uma suposta luta do bem contra o mal. Por outro lado, cresce também o interesse de muitos pesquisadores empenhados em avaliar o quanto essa realidade preocupante da atualidade. A hipótese mais frequente e que parece ser plausível é de que o aumento do sofrimento psíquico está correlacionado às condições impostas pela atual sociedade das tecnologias digitais da informação e comunicação. Devido à nova ordem econômica mundial que se mantem com o suporte dos múltiplos recursos da tecnologia digital, de modo geral, as pessoas estão cada vez mais dependentes da conexão com as redes sociais onde pode prevalecer os mais complexos interesses.
Uma das referências para estudar as condições gerais de saúde mental na sociedade contemporânea, com foco nas relações entre o uso extensivo das tecnologias digitais e as novas condições de trabalho, são as ideias do filósofo sul-coreano radicado na Alemanha Byung Chul-Han. Nas últimas três décadas, ele tem se dedicado a compreender e ressignificar o caminho iniciado pelo existencialismo de Martin Heidegger (1889 - 1976), que inseriu o conceito de Dasein ou ser-aí para designar as condições de pertencimento do indivíduo em seu quadro de referência existencial. Em que sentido as pessoas têm condições de encarar os desafios das novas condições de trabalho, sem ter a sua saúde mental afetada?
Em um livro publicado em 1996, traduzido e publicado no Brasil com o título: “O Coração de Heidegger: Sobre o Conceito de Tonalidade Afetiva em Martin Heidegger", Byung Chul-Han mostra e amplia a pertinência de aplicação do conceito de tonalidade afetiva no estudo dos desafios atuais da sociedade das tecnologias da informação e comunicação. Trata-se de uma reflexão sobre o momento atual em que vários problemas têm intensificado, tal como os limites do Estado para combater o poder das grandes empresas de tecnologia. Assim, os grandes movimentos migratórios da atualidade, os capitais transnacionais, o aumento do crime praticado pela internet, podem ter tudo a ver com o potencial do humor com o qual o indivíduo está inserido no mundo.
A tonalidade afetiva revela as condições da trajetória existencial do indivíduo diante das regras prevalentes do mundo tecnológico, da capacitação para o trabalho e da performance do grau de envolvimento com o trabalho on-line, por vezes, não delimitado ao tempo razoável das atividades laborais. Nesse sentido, parece ser plausível a hipótese de que a tonalidade afetiva se desdobra em diferentes níveis de ansiedade, angústia, emoções, tédio e sentimentos. É o conjunto dessas condições psicológicas que traduzem a dimensão ontológica que leva a pessoa a pensar e agir no seu mundo.
O conjunto das tonalidades afetivas leva ao Dasein, descrito por Heidegger como o ser-aí, seja qual for o contexto no qual o indivíduo esteja inserido. É a partir desse quadro de referência que a tonalidade afetiva envolve as emoções, mas abrange uma área mais ampla de toda afetividade. É um conceito abrangente que vai além de estar alegre ou triste e não funciona com base na lógica binária. Para entender a tonalidade afetiva, é melhor não usar a conjunção disjuntiva que nos leva a optara por uma coisa ou outra. Pelo contrário, a ideia de espectro já traz implícita uma série de conectivos que envolve emoção, medo, sentimento e muito mais. A função deste espectro é auxiliar a pessoa a perceber o quanto a tonalidade de suas emoções, sentimentos e humor está afetando suas condições de vida e trabalho.
Um profissional que trabalha no mercado de capitais, regido por registros quase simultâneos de informações digitalizadas que podem ser rapidamente alteradas tem sua alma ligada digitalmente aos grandes centros mundiais do poder econômico. Se por um lado existem as condições existenciais subjetivas de cada indivíduo, por outro, há a prevalência das regras ou estratégias nem sempre evidentes da nova ordem econômica mundial. Até pouco tempo, fala-se muito nos chamados paraísos fiscais, que tinham base física em famosas ilhas ou estados suspeitos de qualquer transparência. É por esse caminho crítico que a tonalidade efetiva de Heidegger tem sido ressignificada por Byung Chul-Han para entender as condições atuais de trabalho e existência no mundo atual regido pelas sociedades digitalizadas de informação e comunicação. Como é possível conciliar as novas condições de trabalho com a saúde mental e as ameaças mais expressivas do adoecimento da alma?
As ideias de Byung Chul-Han é uma direção para admitir que cada ser humano tem o direito de trabalhar e viver guiado pela imagem arquetípica do renascimento e assim integrar seus complexos e ampliar a capacidade de ver o mundo como uma experiência que vale a pena viver. Qualquer ser humano inserido em um contexto cultural estará, de uma forma ou de outra, afetado pelas forças prevalecentes naquela realidade imediata. Abre-se assim a conveniência de avaliar o quanto o indivíduo está afinado com essas condições de sua vida e do seu trabalho.
Avaliar essas condições parece ser algo profundamente necessário para preservar a sua saúde mental. Por um lado, essas relações entre os componentes psíquicos mais internos, incluindo aí os complexos do inconsciente pessoal, e as representações coletivas parcialmente externas sempre, sempre existiram. O problema que parece novo na sociedade contemporânea e que alteram as referidas relações é a intensidade, duração e frequência com que as funções psicológicos estão sendo invadidas por um excesso de informações digitais.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 19/01/2026
Alterado em 19/01/2026