Sete verbos capitais
Depois de longos anos como professor, comecei a refletir sobre as questões de método para a elaboração do conhecimento. As raízes gregas da palavra “método” significam escolher um caminho para elaborar o conhecimento e refletir sobre a forma mais eficiente de fazer isso. A partir de referências da psicologia analítica destaquei sete verbos essenciais para resolver problemas no sentido amplo do termo, que vão do conhecimento objetivo ao autoconhecimento. Ao fazer esse destaque, admito que as funções psíquicas funcionam com base na articulação de atitudes e forças internas que acontecem nas relações entre consciência e inconsciente, esse último sendo desdobrado nos níveis pessoal e coletivo.
O primeiro verbo é ler. Aprendi a valorizar a prática da leitura com o exemplo dado pelo meu pai, sapateiro que escrevia poesia, e com minha mãe costureira que gostava de ler. Em minha casa da infância, tinha revistas velhas, presentes de um generoso tio que quando nos visitava trazia de presente. Havia ainda romances esgarçados pelo tempo, passando por sucessivas mãos e mentes. Quando era possível comprar um gibi, a emoção da leitura era insuperável. Hoje, entendo que o arquétipo da leitura pode iluminar o ambiente, seja por textos escritos na língua materna ou mensagens expressas por outras linguagens. Bem antes da alfabetização, a criança já está em contato com outras linguagens que envolvem desenhos, imagens, música, dança, gestos e sinais. Nessa linha estão as expressões faciais humanas que comunicam emoções e afetos. Mas a valorização da leitura acontece também em função do espírito da época das tecnologias disponíveis no contexto.
O segundo verbo é escrever. A escrita manuscrita ou digital pode expandir a elaboração do conhecimento escolar, entre outros. Da mesma forma como acontece com a leitura, desde a infância as crianças devem ser estimuladas a se expressar através de desenhos, rabiscos, letras, frases e sentimentos. É muito importante valorizar essa forma de projetar o mundo interior para o ambiente no qual o indivíduo está inserido. Assim como a leitura implica num movimento do mundo externo para o nível internos da consciência, a escrita funciona na direção contrária. O ato de escrever, como fazem os poetas e outros escritores, consiste em projetar para o mundo externo algo que está dentro do ser humano. Talvez ler e escrever são atos que se entrelaçam e se fortalecem mutuamente, assim como aprender a falar e a ouvir.
O terceiro verbo é falar. Aprender a se expressar pela oralidade e vivenciar as sucessivas fases que aquisição dessa condição que precede à leitura e à escrita. Porém, nas últimas décadas, com a expansão dos recursos digitais das mídias sociais, podemos encontrar na internet muitas práticas de oralidade com os mais diferentes propósitos. Pude observar que alunos meus que tinham vivência de falar no púlpito da igreja, normalmente, desenvolviam essa capacidade tão necessária para aprender. Por outro, saber se expressar oralmente passou a ser quase uma exigência para diversas áreas profissionais. Profissionais da área de saúde, por exemplo, devem explicar de maneira inteligível o estado de seus pacientes.
O quarto verbo é ouvir. E certamente saber ouvir é uma atitude mais complexa do que escutar. É evidente que a sensação de ouvir uma fala é apenas da percepção, do entendimento e da objetivação. Um exemplo pode ser aqui lembrando que nem sempre a explicação do professor é entendida da mesma forma pelos alunos. A comunicação é um processo que exige certo esforço de ambas as partes, tanto do expositor como do receptor da mensagem verbal.
Os outros três verbos são: retornar, repetir e elaborar. Nesse ponto, é preciso lembrar de um dos princípios da psicanálise freudiana. Porém, essas três etapas estão mais voltadas para o autoconhecimento, para vivenciar um mergulho dentro de si-mesmo e tentar integrar partes conflituosas e continuar o processo da individualização. O retorno ao passado não é fácil de ser vivenciado porque envolve memórias de todos os tipos, inclusive as falsas memórias que abrem um tema fundamental da psicologia. Algumas pessoas não gostam de retornar aos tempos da infância, outras preferem permanecer na fantasia das lembranças apenas saudosas, como se fosse possível esquecer traumas, repressões e violências que, infelizmente, podem rondar as experiências das crianças.
Mas dependendo desse retorno, buscando recompor o caminho do crescimento espiritual, podemos passar para a fase do repetir e repetir, como se o entendimento daquele momento fosse verdade absoluta. Finalmente, os sete verbos para exercitar o domínio cognitivo são: ler, escrever, falar, ouvir, retornar, repetir e elaborar. Não existe uma ordem absoluta entre eles. Talvez exista alguma precedência natural, tal como aprender a falar antes de escrever. Assim como parece ser inviável elaborar uma solução para o crescimento pessoal, sem retornar ao passado para entender o presente.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 21/01/2026