Alma do mundo
A alma do mundo é um conceito cujas raízes remontam ao conhecimento cosmológico dos povos mais tradicionais. É uma noção ampla e poderosa porque trata-se de conceber o mundo como um organismo dotado de alma própria. No livro Timeu, escrito por volta de 360 a.C., Platão sugere um longo monólogo para expressar o que ele entendia ser a alma do mundo. É uma especulação filosófica no sentido de revestir todas as ideias límpidas que os seres humanos deveriam contemplar. O mesmo conceito aparece em outros diálogos inspirados na visão de Sócrates, de quem Platão foi discípulo.
Mesmo sem ter criado de fato toda a realidade, a alma do mundo que funciona como o princípio organizador do universo foi generosamente distribuída para todos os seres. Sem a alma do mundo prevaleceria o caos. Esse conceito antigo foi sendo reproduzido e relativamente modificado em diferentes períodos da história da humanidade, merecendo atenção especial de pensadores como Abelardo, Giordano Bruno e do renomado médico Paracelso já na Idade Moderna. Na formulação dos fundamentos da psicologia complexa, Jung retoma essa longa história da alma do mundo, com o propósito de explicar sua função simbólica que sustenta as representações arquetípicas.
O retorno a esse conceito foi considerado por Jung uma necessidade para embasar uma visão psicológica diferente daquela predominante no determinismo mecanicista, até então predominantes na psicologia do seu tempo. Nesse sentido a alma do mundo está presente no coração da psicologia complexa, base teórica de sustentação da prática clínica da psicologia analítica. O conceito de alma do mundo abre espaço, juntamente, com o inconsciente coletivo, as teorias dos complexos e dos tipos psicológicos, para não delimitar o conhecimento psicológico à ciência moderna.
Por esse motivo, a partir do final da década de 1920, Jung passa a utilizar a expressão psicologia complexa para designar a base teórica da psicologia analítica, termo esse mais usado para se referir aos procedimentos da prática clínica. Certamente, a proposta da psicologia de Jung não é compatível com a crença de tudo que existe no mundo se resume à matéria inanimada. Contrariamente, consiste em admitir a existência de inúmeros fenômenos psíquicos que transcendem a lógica da consciência do ego, mas nem por isso devem ser concebidos como inacessíveis pela totalidade da psique humana.
Finalmente, cumpre lembrar que em tempos de constantes ataques e destruição ao meio ambiente, é oportuno admitir como bem supremo que existe uma força mais ampla do que a inteligência humana, que transcende à consciência humana, que não é apreensível pela ciência moderna. A alma do mundo sustenta a vida no sentido mais sublime e interliga todos os seres à natureza, aos rios e todos os seres vivos da terra de outros planetas sobre os quais a razão humana pouco pode afirmar.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 26/01/2026
Alterado em 26/01/2026