Luiz Carlos Pais
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. (Fernando Pessoa)
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Christian Wolff na história da psicologia do século 18
O filósofo iluminista alemão Christian Wolff (1679 - 1754) tem seu nome inscrito na história da psicologia do século 18, devido a uma proposta de estruturação da psicologia existente naquele momento. Até então predominava a perspectiva de uma “psicologia filosófica”, sendo que somente a partir dos meados do século 19 é que cresceu o movimento em busca da criação da ciência psicológica. Mais especificamente o objetivo desta resenha é resumir um artigo do professor Freitas Araújo, “O lugar de Christian Wolff na História da Psicologia”, destacando ideias psicológicas da primeira metade do século XVIII. Trata-se de visualizar o contexto que precede por mais de um século a sistematização da Psicologia Experimental. Destacaremos algumas unidades para entender a importância do conhecimento psicológico do referido filósofo, destaques feitos a partir da questão orientadora: “Por que a psicologia proposta por Christian Woff não obteve sucesso?”

Em primeiro lugar, cumpre destacar a importância histórica das ideias de Wolff, relativas ao conhecimento psicológico de sua época. Nesse sentido, Araújo (2012) expressa a ampla síntese que o filósofo produziu na primeira metade do século XVIII. Por outro lado, o autor também constata a existência de uma lacuna na historiografia, quanto ao reconhecimento das ideias do filósofo racionalista que, naquele momento, conferiram à Psicologia o estatuto epistemológico de disciplina vinculada à Filosofia. Nesse sentido, é preciso localizá-las no efetivo tempo no qual foram produzidas. Caso contrário, corre-se o risco de incorrer no chamado anacronismo.

O autor do referido artigo que analisamos mostra que a obra filosófica de Wolff significou uma síntese do que do debate travado entre filósofos racionalistas e empiristas, no que diz respeito aos estudos psicológicos. Mais especificamente, desde o início da Idade Moderna. Essa síntese propunha um complexo sistema filosófico admitindo a existência de uma Psicologia Empírica e de outra Psicologia Racional. Entretanto, seria indevido levantar objeções em relação à essa dualidade que estava revestida de visão metafísica, com vínculos ao pensamento teológico. Mas, essa síntese avançou em relação ao passado, pois evidenciou o problema central que seria atacado pelo filósofo Immanuel Kant. Em outros termos, a partir das ideias de Wolff, pela via de uma crítica ferrenha, vieram os vetos kantianos que sinalizaram o desafio para fosse possível propor, décadas depois, uma abordagem científica experimental da Psicologia.

Christian Wolff propôs um complexo sistema no qual Psicologia aparece dividia em duas partes. Havia uma proposta de lhe conferir o estatuto de conhecimento empírico e lhe conferindo também uma dimensão racional. Foi nesse quadro que a Psicologia aparece ainda vinculada à Filosofia metafísica. Assim, o filósofo estava propondo a existência de uma Psicologia Filosófica, com objeto ainda impregnado por uma visão metafísica. Embora Wolff reconhecesse a necessidade de valorizar a abordagem matemática de questões psicológicas, mas predominava em seu sistema uma visão muito mais metafísica, o que foi duramente criticado por Kant. Para esse filósofo, era impossível tentar atribuir estatuto científico à Psicologia, sem definir com clareza seu objeto e métodos, tal qual as faziam as chamadas Ciências Naturais.

Ao conceber a existência de uma Psicologia empírica, Wolff não considerou a existência das relações entre o que a alma e as bases fisiológicas do corpo humano. Sua visão consistia com admitir como “empírico” o que ele chamava de “estudo da alma interior”. Ele tinha interesse no que chamava de faculdades da alma, vinculados os processos da sensação, percepção, memória, entre outros, à essas faculdades que estavam ainda revista de um caráter essencialmente metafísico. Desse modo, sua visão não estava ainda voltada para à natureza das ciências experimentais, o que foi objeto das críticas formuladas por Kant. Por outro lado, ao conceber a existência de uma Psicologia racional, Wolff concebida a alma dotada do poder de “representação do universo”, seguindo a mesma abordagem de Platão, no sentido de desvincular alma e corpo. Em outras palavras, o sistema de Wolff ainda estava mais voltado para a visão dualista, separando alma e corpo, na mesma linha proposta por Descartes, mas sem aceitar a existências das chamadas ideias inatas.

Na  época considerada ainda faltava cerca de meio século para a difusão das ideias de Immanuel Kant (1724 – 1804) e, particularmente, aos vetos feitos por esse filósofo racionalista para a constituição do conhecimento psicológico como disciplina científica, tendo em vista as dificuldades então existentes para esclarecer a natureza do seu objeto de estudo. Ainda quando ao tempo vivenciado por Wolff, é importante ressaltar o avanço de suas ideias em relação às contribuições dos também filósofos racionalistas René Descartes (1596 – 1650), assim como de Gottfried Leibniz (1646 – 1716).

Wolff teve sólida formação em Matemática e seus conhecimentos nesse domínio chamaram a atenção de Leibniz (1646 – 1716), um dos criadores do Cálculo Diferencial e Integral. Além de seus conhecimentos científicos e matemáticos, contribuiu na disseminação da visão científica por diferentes reinos germânicos. Mas sua tentativa de valorizar a aplicação da matemática no campo de estudo da psicologia de sua época permaneceu apenas no plano abstrato das ideias. Assim, em termos de importância no destaque de questões específica da Psicologia, o filósofo articula as bases racional e experimental, mas com a precedência da visão metafísica sobre a psique. Conforme Araújo (2012), questões essenciais para o estudo da psicologia estão na obra “Metafísica Alemã”, publicada, pela primeira vez em 1720, ou seja, cerca de160 anos antes da criação da Psicologia Experimental sistematiza por Wilhelm Wundt.  

As questões psicológicas eram concebidas por Wolff como parte da metafísica, com a precedência de questões religiosas, mas interligando a alma com o mundo em geral. Desse modo, a psicologia estava a serviço da filosofia e não era ainda concebida como um corpo de conhecimento com relativa autonomia. Nos dizeres do autor: “Isso significa que não há, no pensamento wolffiano, uma autonomia da psicologia, no sentido de uma disciplina separada da atividade filosófica.” (ARAÚJO, 2012). Wolff chegou a considerar a importância do método experimental no estudo da Psicologia, mas, por outro lado, o método introspectivo estava presente, restrito ao plano das ideais, ao longo de suas obras. Nada de errado havia com esse tipo de abordagem, mas, como filósofo, ele não estava disposto a entrar de corpo no chão do laboratório.

Christian Wolff foi pioneiro também no uso do termo “psicometria”. Ele acreditava na necessidade de realizar medidas objetivas dos fenômenos psicológicos, ideia essa que seria, décadas depois, consolidada na pesquisa psicológica. Assim, retomamos à questão diretriz deste resumo. É preciso destacar que a psicometria concebida pelo filósofo aparecia ainda apenas como ideal de estudo, indicando uma direção a ser seguida por quem estivesse interessado em estudar os problemas psicológicos.  As considerações finais do artigo afirmam a importância histórica do pensamento filosófico de Christian Wolff, como uma espécie do que poderíamos talvez chamar de anunciador de uma visão científica da Psicológica, porém ainda restrita ao plano abstrato das ideias filosófica. Ao que tudo indica, não há dúvida alguma quanto à importância da obra o referido filósofo, mas havia ainda um longo caminho experimental, de pelo menos 120 anos, até ser possível ocorrer os primeiros movimentos de

O artigo destaca a precedência da natureza filosófica da visão de Woff, pois seu enfoque tinha uma conotação mais idealista do que experimental, concebendo a psicologia como conhecimento metafísico, capaz de intermediar a experiência material, a razão e Deus. Assim, estava ainda distante da visão científica que iria se concretizar com os trabalhos de Wilhelm Wundt. Em síntese, o recorte proposto no artigo observa que a visão empreendida por Woff estava restrita à Filosofia, embora fossem importantes, estavam revestidas de visão idealista, típica do iluminismo da época, mas ainda distante da visão científica e experimental que iria se concretizar, em 1879, a partir dos trabalhos de Wilhelm Wundt e seus parceiros.

Referência

SAÚLO, S. F. O Lugar de Christian Wolff na História da Psicologia. In Universitas Psychologica. Colômbia. Pontifícia Uni. Xavieriana. Vol. 11. N 3. 2012. Disponível em http://www.scielo.org.co/scielo. Acesso em 16 de março de 2022.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 26/01/2026
Alterado em 26/01/2026
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