Psicóloga Marie-Louise von Franz
Escrevo essas notas biográficas da psicóloga germânica e suiça Marie-Louise von Franz com a intenção de conhecer a importância do seu trabalho na disseminação mundial da psicologia analítica, a partir dos anos 1930, quando a obra Jung assume projeção em diversos países. No Brasil, uma das primeiras divulgadoras da obra de Jung foi a psiquiatra Nise da Silveira, com seu trabalho pioneiro, nos anos 1960, de proposição da Terapia Ocupacional e utilização de mandalas na recuperação de pessoas com transtorno mental. Assim, a motivação para retornar à sua trajetória profissional está associada a uma questão história que ainda não foi suficientemente pesquisada. Sua expressiva produção foi amplamente recebida em diferentes países devido não somente à fluência do seu texto para divulgar e detalhar as noções propostas por Jung, ampliadas com proposições relevantes para o desenvolvimento da abordagem psicológica.
Natural da cidade de Munique, Alemanha, Marie-Louise von Franz nasceu em 1915 e passou a maior parte da sua vida na Suiça, onde foi escritora, pesquisadora e psicóloga analítica. Durante cerca de três décadas, trabalhou diretamente na equipe de psicólogos formados por Carl Gustav Jung, criador da psicologia analítica. A princípio seu trabalho foi na tradução de obras latinas e depois na realização de experimentos e análises de dados de pesquisa. Mais precisamente, essa parceria de trabalho transcorreu entre 1933 até 1961, quando Jung faleceu. Em 1948, juntamente com Jung e a também analista Jolande Jacobi, Von Franz participou da fundação do Instituto Carl Gustav Jung de Zurique, centro de pesquisa e formação. Ela escreveu cerca de duas dezenas de livros que foram traduzidos e divulgados em vários países. Muitos desses livros foram publicados no Brasil a partir dos anos 1970, na fase inicial de divulgação da psicologia analítica em nossa país.
Algumas de suas obras foram escritas em parceira com Jung e essa parceria a levou a ser uma das mais conhecidas analistas da primeira geração que não somente divulgou a obra de Jung, mas também ampliou conceitos e detalhou e aprofundou temas fundamentais incluindo as questões relativas aos métodos utilizados na conjunção de forças opostas do inconsciente. Alguns de seus biógrafos mencionam que a sua produção científica mais importante para o desenvolvimento da psicologia analítica foi a obra "Number and Time: Reflections Leading Toward a Unification of Depth Psychology and Physics" (Número e Tempo: Reflexões que Levam à Unificação da Psicologia Profunda e da Física), publicada originalmente em 1974. Essa obra é uma expansão da teoria inicialmente proposta pelo físico Wolfgang Pauli, ganhador do Nobel de Física de 1948, sobre relações existentes entre os números naturais e os arquétipos.
O enfoque dado à questão numérica nos estudos de psicologia analítica está mais diretamente relacionada aos números naturais que não são considerados apenas recursos para a contagem de quantidades discretas, mas como elos de conexão entre a mente humana e a matéria física. Tema esse que lança linhas de articulação entre a psicologia analítica e a física moderna, sinalizando para a existência de um modelo de mundo unificado e único ou Unus Mundus, desenvolvido por Jung no estudo do que ele denomina de mistério da conjunção, que trata do princípio da unidade entre a mente e a matéria.
O mesmo conceito Unus Mundus está também descrito na obra Sincronicidade, publicada no início dos anos 1950. Refere-se a uma realidade unificada que engloba a totalidade de conteúdos da mente (psique) e matéria tal qual foi conceituada a partir da física moderna. Em outros termos, o mistério da conjunção e a sincronicidade são conceitos que estão na base de sustentação de representações coletivas universais sobre os temas mais relevantes para a humanidade, de onde surgem os arquétipos que assumem função fundamental na formação do inconsciente coletivo.
Um dos argumentos desenvolvidos por von Franz diz respeito ao postulado de que os números funcionam como recursos de eventos de sincronicidade. São recursos que atuam na mediação entre eventos internos do psique (sonhos, pensamentos, visões) e eventos físicos do mundo exterior perceptíveis pela sua objetividade. A relação entre os números com os padrões universais de abstração e generalidade envolve uma dimensão numinosa que está na interface entre psicologia analítica e física quântica, que remonta à inspiração simbólica e transcendente à compreensão humana.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 10/02/2026
Alterado em 25/06/2026