Luiz Carlos Pais
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. (Fernando Pessoa)
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Phineas Gage
O caso do operário norte-americano Phineas Gage é um marco na história inicial da área hoje conhecida como neuropsicologia. Em 1848, quando estava então com 25 anos de idade, ele sofreu um grave traumatismo craniano, quando trabalhava na construção de uma ferrovia. Seu trabalho era perfurar rochas com uma barra de ferro para colocar pólvora, socar devidamente, provocando uma explosão das pedras e assim abrir o espaço para construir o leito da ferrovia. Ao colocar pólvora em um desses orifícios, ocorreu uma faísca imprevisível provocada pelo atrito do ferro com a pedra. A barra foi então acionada como um enorme projetil que o atingiu logo acima do olho, atravessando o seu cérebro e ficando fixada no crânio perfurado em dois lugares, na parte frontal e na parte superior, que é chamada lobo parietal.  Gage foi levado para o hospital e atendido em emergência, permanecendo  consciente de tudo o que estava acontecendo com ele.

Uma das mais antigas fontes para conhecer esse caso  é um artigo publicado, logo após o acidente, pelo médico John Martyn Harlow (1819–1907) que fez os primeiros atendimentos ao operário e cuidou dele até o restabelecimento completo de sua saúde física. Alguns meses após o acidente, Gage estava recuperado fisicamente. Mas o ferimento no lobo frontal certamente atingiu o que, décadas depois, ficaria conhecido como o epicentro coordenador das funções executivas e das relações sociais imediatas.

Outros artigos foram publicados, posteriormente, e esse caso passou a ser descrito em quase todos os livros de história da psicologia, no capítulo dedicado ao funcionamento neurológico do cérebro humano. Após o primeiro artigo publicado em 1948, duas décadas depois e após a morte do Gage, o mesmo médico que o atendeu escreveu outro artigo detalhando o que entendia ser alterações dos aspectos psicológicos do seu famoso paciente. É nesse sentido que começam as primeiras anotações para constituir a atual área de neuropsicologia que consiste em conhecer e tratar aspectos psicológicos decorrentes de agravos e acidentes encefálicos dos mais variados tipos.

Antes do acidente, Phineas Gage era reconhecido como um homem respeitoso, honesto, trabalhador e bem-adaptado às normais sociais. Mas, após o acidente, esses traços da sua personalidade foram profundamente alterados, passando a ser visto como uma outra pessoa, pois passou a não querer mais trabalhar em serviços braçais e a interagir de modo desrespeitoso com as mulheres e com outras pessoas de modo geral. Na avaliação do senso comum ele teria se transformado numa criança grande, na qual os seus conterrâneos não poderiam mais confiar. Em outros termos, ele passou a não mais cultivar os atos da boa convivência das regras sociais.

A princípio, a sua recuperação física foi mais divulgada e inclusive explorada do ponto de vista comercial, com apresentações em circos do “fabuloso caso” com a presença daquele que foi operário e depois do acidente passou a ser uma atração pública na visão dos seus exploradores. Na realidade, com base em outras fontes bibliográficas mais recentes, é provável que Phineas Gage tenha sofrido alterações significativas no sistema neurológico cerebral. Hoje sabe-se que essa mesma região do cérebro é responsável pelo nosso controle inibitório verbal e social, estabelecendo os limites do que pode e não deve ser feito em função das regras sociais que permitem a convivência coletiva.

A partir do relato desse caso, os pesquisadores começaram a entender que o lobo frontal é o centro executivo da parte pública da personalidade, ou seja, da parte considerada civilizada e que esconde as trevas mais profundas do inconsciente pessoal e coletivo, conforme explica a psicologia analítica. Qualquer agravo nessa região a pessoa pode ter severas alterações da personalidade no que diz respeito às relações diretas e imediatas mantidas no seu ambiente cultural. É por esse e muitos outros casos clínicos que, pouco a pouco, amplia o conhecimento da atual neuropsicologia.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 13/02/2026
Alterado em 21/06/2026
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