Luiz Carlos Pais
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. (Fernando Pessoa)
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Textos
Trabalhar, estudar e viver
Sou do tempo que criança podia trabalhar. Não apenas auxiliar os pais. Cumpria horário, no esquema rígido do seis por um. Ainda tenho dúvidas do quanto isso pode ser saudável, abrindo brecha para exploração de menores, que não foi o meu caso. Trabalhava na sapataria do Zé Paes, meu pai severo, mas sensível à importância da educação escolar. Hoje, refletindo, percebo que aquela sapataria talvez fosse diferente das outras. Havia uma estante grande, onde eram colocados os sapatos. Mas, havia uma prateleira com alguns livros, romances clássicos tais como o Cortiço, do Aluísio Azevedo, o Alienista, do Machado de Assis, e os Miseráveis, de Vitor Hugo, esse último presente do meu ex-professor e amigo de letras do meu pai,  Roberto Lisboa.  Havia também um velho livro de remédios caseiros do meu avô paterno, que indo preservo em minha estante atual. Meu avô paterno se chamava Herculano Paes. Casou-se  com minha avó Margaria Maria de Jesus, de ascendência indígena. Ela não tinha documentos. Nenhum papel sobre suas origens e sempre morou com o meu pai. Assim, eu, meus três irmãos e minhas três irmãs sempre tivemos a companhia direta de minha avó que gosta de gato, conhecida plantas comestíveis hoje chamadas não convencionais, beldroega, ora-pro-nóbis, cambuquira, serralha, umbigo de bananeira, entre outras. Meu pai sapateiro e minha mãe costureira gostavam de leitura. Meu pai era poeta e escreveu sonetos alexandrinos. Gostava de ler, escrevia crônicas em jornais. Com meu pai e minha mãe aprendi a lição: trabalhar, estudar e viver. Nessa ordem. Descanso mesmo só aos domingos. Eu fazia caminhadas pelos campos de Guavira,  um pouco de leitura e o dever de casa passado pela professora,  também ia ao matinê do cinema.  Após completar 18 anos, fui trabalhar no escritório  no centro da cidade. Vaga que consegui por indicação de um professor do  curso de Técnico em Contabilidade. Durante três anos, fiz a rotina de escriturário, redigindo e datilografando cartas, preenchendo fichas de seguro, notas promissórias, contratos e outros documentos. Além da sapataria, descobri que havia um outro mundo e depois do escritório descobri por intuição que havia um caminho melhor. Entrei numa universidade pública e me fiz professor.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 20/06/2026
Alterado em 20/06/2026
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