Luiz Carlos Pais
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. (Fernando Pessoa)
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Farmacêutico Corintho
Ao retornar aos anos 1960, buscando eternas lembranças da terra natal, reencontro o farmacêutico prático Corintho, conterrâneo de São Sebastião do Paraíso, polo cafeeiro do sudoeste mineiro. Amigo do meu pai, frequentador da nossa sapataria e aplicador de injeções em nossa família. Se necessário aplicava soro ou manipulava algum remédio do laboratório de ilustre farmacêutico da cidade. Por longos anos, prestou assistência aos idosos que moravam no Asilo. Era secretário da Conferência dos Vicentinos, redator de atas e cartas. Tinha caligrafia. Caso houvesse um conhecido doente, estava sempre presente, com visitas em domicílio. Celibatário, sexagenário era cunhado do mestre de obra Joaquim Queiroz, que construiu a capela do Colégio Paula Frassinetti. Morava solitário em um quarto de fundos, próximo à Igreja da Abadia.

Foi nessa região da Mocoquinha que ele plantou suas raízes para servir ao próximo, atravessar seus dias e exercitar a empatia com seus conterrâneos. Dizia ele que viveu alguns anos de sua juventude em São Paulo, onde aprendeu a profissão, acumulou conhecimentos do ofício e prática dos instrumentos usados na manipulação das miligramas dos materiais usados na produção de remédios. Não teve a chance de frequentar o curso superior como desejara, mas tinha domínio da língua portuguesa, aritmética elementar, caligrafia e arriscava frases em Latim. Sabia o nome científico de várias medicinais, drogas e insumos usados na produção de diversos medicamentos.

O farmacêutico Corintho tinha confiança dos seus colegas farmacêuticos e das pessoas que atendiam, não importando que hora fosse, dia ou noite, estava sempre disponível. Mantinha uma rotina de visita às casas das pessoas que estivessem necessitando de algum remédio especial, injeção, soro ou mesmo de uma orientação criteriosa. Depois de passar alguns anos na capital paulista, o conterrâneo trabalhou, na década de 1930, no laboratório de aulas práticas da Escola de Farmácia e Odontologia de São Sebastião do Paraíso. Além de cuidar dos instrumentos e dos materiais usados na manipulação de medicamentos, transmitia aos estudantes seus conhecimentos. Nesse sentido, confirma a opinião abalizada de um amigo formado em odontologia de que o Corintho foi um dos mais competentes farmacêuticos práticos da cidade. Foi empregado das mais antigas farmácias de manipulação. Era grande amigo do Bruno, proprietário de uma bonita farmácia localizada à Rua Pimenta de Pádua, um pouco abaixo da Igreja Matriz.

Era um homem educado, católico praticante, de fino trato, a quem meu pai convidava para tomar um cafezinho e saborear um bolo de fubá assado ainda no fogão à lenha. Foi nessas condições que o conheci e escutar suas saborosas reminiscências do início do século XX. Conhecia os antigos farmacêuticos da cidade, de quem era amigo: Carlos Grau, Hermengáudio Nicácio, José Ananias, Raimundo Calafiori, Alfeu Brigagão, Edmundo Machado, entre outros que deixaram seus nomes na história local. Já idoso, nosso amigo teve o infortúnio de ser atropelado por um veículo, ao atravessar a avenida Ângelo Calafiori, causando-lhe fratura em uma das pernas. Antes de devolver seus ossos ao Criador, passou algum tempo no leito, recebendo carinho dos amigos. Passou o tempo! Ficou a obra e a saudade de uma pessoa que viveu para servir o próximo.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 21/06/2026
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