No tempo dos jornais escolares
Em meados do século XX, os jornais escolares foram um recurso valorizado em diferentes instituições de ensino do Brasil. Estava em curso o movimento escolanovista, com a proposta de modernizar práticas pedagógicas enraizadas na história da educação. A elaboração desses periódicos foi desenvolvida para articular a cultura escolar com a realidade do contexto social. Por um lado, os defensores da Escola Nova usavam a grande imprensa para divulgar suas ideias e propostas metodológicas; por outro, foi criada a imprensa escolar. Esses jornais nem sempre eram reproduzidos por impressão tipográfica, recorrendo-se frequentemente ao mimeógrafo a álcool. Na época, esse equipamento movido à manivela foi muito usado para a reprodução de provas e materiais didáticos.
Em São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais, nos anos 1930, circulou o jornal Vida Escolar, elaborado por professoras e estudantes do Grupo Escolar Coronel José Cândido. Na década seguinte, há indícios da circulação de outro periódico, intitulado Voz Escolar, feito por professoras e alunos do Grupo Escolar Campos do Amaral. Este último foi o primeiro estabelecimento do gênero na cidade, inaugurado em fevereiro de 1916. Por sua vez, o outro Grupo Escolar, acima mencionado, foi criado cerca de duas décadas depois, já com a disseminação da ideia de modernização das práticas pedagógicas escolares, tornando-se pioneiro na utilização da imprensa escolar como recurso didático.
A imprensa escolar representou uma tentativa de alterar práticas pedagógicas tradicionais, marcadas pela memorização, pela reprodução de cópias e pelo predomínio da recepção passiva de informações. Com o tempo, a memorização e o exercício ganharam novos contornos, mas continuam presentes na educação escolar atual, haja vista os diferentes grandes exames validados pela sociedade. De forma alguma se pode dizer que a memorização tenha sido banida da cultura escolar. Memorizar a tabuada, por meio da compreensão, continua sendo uma atividade exigida para o ingresso nas melhores faculdades do país. A cópia, a repetição e o exercício são práticas transformadas, porém não eliminadas.
Diferente da escola tradicional — mais baseada na memorização e na passividade por parte do aluno —, a imprensa escolar pretendia que os estudantes fossem mais ativos e, de certo modo, produtores de conteúdo. Mesmo sob a prevalência de uma sociedade ainda marcada por estruturas tradicionais, buscava-se que a escola exercesse um papel inovador. Apesar do viés modernizador da cultura escolar, a imprensa escolar reorientou as práticas anteriores sem extingui-las por completo.
De modo geral, os métodos ativos contribuíram para que os alunos deixassem de ser meros receptores de informações e vivenciassem a experiência de se tornarem produtores de conhecimento. Assim, as cópias e repetições perderam espaço para dar lugar à criação de jornais, boletins e cartazes pelos próprios estudantes, embora sob a supervisão da instituição e de seus dispositivos de controle. Como não havia verbas públicas para sustentar essa proposta, os exemplares passaram a ser vendidos ou trocados por contribuições financeiras destinadas a viabilizar a produção.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 11/08/2026